Porque até a dor, um dia, encontra sua forma de silêncio.
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Deixei-te na praia da memória, naquele canto onde a ausência inventa ondas próprias.
Escrevi teu nome na areia, acreditando, por um instante, que o mar teria algum cuidado,
mas ele passou, distraído como sempre, e apagou o que restava de ti.
Tentei recolher conchas vazias, porque achei que carregar restos ainda fosse carregar algo.
Não sabia que algumas memórias têm gumes escondidos.
Cortei meus dedos numa concha partida — uma adaga silenciosa esquecida entre os grãos.
O tempo… ah, o tempo.
Um farol cego, parado no instante do naufrágio, incapaz de me apontar qualquer direção.
Ele não me iluminou, não me guiou.
Aprendi foi a sangrar sem me afogar,
e deixei que o sal fizesse o trabalho que, às vezes, o amor não faz:
tocar a ferida até que ela, exausta da própria dor, resolvesse cicatrizar
na aspereza do esquecimento.
Agora levo tua voz comigo, não como lembrança apagada,
mas como uma bússola quebrada — daquelas que insistem em apontar
para o único lugar onde você não está.
Ainda assim, eu acredito, e planto sementes no meu deserto,
porque até os cactos aprenderam, em algum momento,
a beber das lágrimas que derramei tentando sobreviver a ti.
A dor também mudou de função.
Virou adubo, fertilizou o campo seco da saudade,
e hoje minhas cicatrizes — essa fronteira entre quem fui
e o que a tua ausência acabou moldando — começam, aos poucos,
a se desfazer na areia, discretas,
como se nunca tivessem existido.
E sigo, meio perdido, mas menos ferido do que antes.
✍️ @opoetatardio – Pedro Trajano
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