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segunda-feira, janeiro 12, 2026

O Chão dos Dias

O ano novo chegou para valer.
desmontaram as árvores
recolheram os presépios
as visitas se foram
desarrumaram-se as malas

o cardápio voltou ao necessário
o fim das férias nos olha de perto

Volta-se ao dia comum.
a rotina sem romantização
chega e nos abraça
se aceitarmos.
ela fica.


e isso
simplesmente
é a vida
sendo vivida.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
===============
✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Pequeno atraso

No meio da conversa
peguei a xícara de café
levei vazia à boca
ri antes que minha esposa notasse o motivo,
mas como explicar que às vezes o erro é só o corpo
atrasado em mim mesmo.

Nota do poeta:
Este poema nasceu de um pequeno desencontro entre meu corpo e o dia que já havia começado.



✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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terça-feira, dezembro 30, 2025

Nômades que Somos

Entre o fim e o começo, um intervalo chamado travessia, ali, o novo ano ganha consciência.

✍️
O que se finda não são os dias
mas o calendário que escapa entre os dedos
O que começa não é tempo novo
mas a chance do que ainda não se fez.


Deixamos o ano que nos abrigou
como quem solta o eco de um “eu te amo” não dito
meses e estações
como velas acesas em silêncio no altar.

Esperamos a morada sem forma
uma vibração que busca o ar
entre o primeiro de janeiro e a São Silvestre
uma incerteza que nos move.

Certo é o que ficou:
a lição, o passo, a pequena vitória
ou os reversos dos versos da vida.

A areia imóvel da praia não visitada
o mapa amassado no bolso
Move-se a onda que me chama pelo nome
um horizonte engolido além dos olhos.

domingo, dezembro 21, 2025

1/2 século: um tempo escultor

Das raízes da memória ao agora que se forma.

✍️
Não conto mais os anos, mas as luas que me viram
o começo do meu florescer em meio ao sol e às geadas
entre cafezais e canaviais
Chego aqui com as estradas que me abriram
e a poeira do século passado em meus sinais
Já bati facão no tronco de cana queimada
e deixei suor das mãos em cabo de enxada
Mas o tempo passou pincelando muitas telas
e a alma, enfim, foi se aquietando, a serenando
enquanto a dor no joelho chegou, discreta.

O tempo, este escultor de traços pacientes
talhou em mim os mapas onde morri e vivi
e o espelho me devolve um corpo mais ciente
com fios brancos surgindo, silenciosos e persistentes
Honro a semente de onde a minha história nasceu
meus pais, meus irmãos, meu primeiro alicerce
Guardo os amigos, raros e valiosos tesouros
e as três estrelas, minha constelação
Cláudia, Emanuelly e a poesia que me invade
um trio que dá sentido ao tempo que me pertence.

O homem que sou já não tem a pressa de ontem
e prefere o silêncio que mora entre as palavras
Demorei para encontrar, mas ela veio em boa hora
a força que em minhas raízes se lavra
Minhas rimas buscam hoje o peso da terra
a leveza das nuvens, a calma de um céu azul
e o verso brota sem que a mente o desenterra
como flores que escolhem o inverno do sul.

A estatística sugere que eu já deva ter
mais história que futuro em minha jornada
mas a realidade teima em me dizer o contrário
Liberto das cobranças, dos números seguros
sigo o meu tempo, meu próprio itinerário
Pois, no fim, o que vale é o agora em serena mutação
ancorado na vida, pronto para a dança
que o destino trouxer de presente em cada estação.

Então, celebro meus cinquenta tons
não com velas — porque elas queimam e desaparecem —
mas com plumas: essas sabem voar comigo
Proclamo à vida e bato palmas para mim!
Agradeço a Deus pelo maior dos dons
e por ter chegado, finalmente, a este jardim
Feliz aniversário, poeta, por ser quem fui, sou e serei
e por estar celebrando a dança que a vida me propôs
ainda que eu erre alguns passos, volto à pista
porque a vida começa — a todo instante.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
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segunda-feira, dezembro 15, 2025

Estradas, Desertos e Flores

O homem contemporâneo. Pós-promessa e pós-ilusão...

✍️
Ando
por estradas que não prometem chegada
carrego no peito
um vazio que não pede explicação
apenas pesa

Há uma saudade sem nome
dessas que não gritam
mas corroem
desfazem certezas
e constroem perguntas

Guardo lembranças do amanhã
futuros que sonhei ontem
e que não vieram
como mensagens nunca lidas
como chuva que escolheu não cair

Depois do boa-noite
fica o corpo
fica o quarto
fica o silêncio
fazendo mais barulho
do que qualquer palavra dita
do que qualquer grito

ou gemido de choro

Neste deserto que chamo de peito
de fases da vida
de cotidiano
cada segundo é atrito
é o incômodo de continuar
quando tudo pede pausa
às vezes meu próprio suspiro
pesa mais
que a gravidade de um planeta inteiro

Há dores que não aprendem a falar
feridas que se deitam
sobre cicatrizes mal curadas
como se o tempo
andasse em círculos
como se sangrar
fosse um hábito
uma solução

Ainda assim
algo em mim se recusa a desistir
a se vitimizar
não por coragem
mas por teimosia
recolho migalhas
acredito em milagres pequenos
desses que não mudam o mundo
mas salvam o dia

A estrada segue
e eu sigo junto
buscando a arquitetura
de um começo possível
nos escombros do que fui
no avesso do avesso
da minha própria realidade

Dentro de mim
uma flor insiste
em nascer onde ninguém regaria

um pássaro canta
mesmo esquecido pelo bando
não para vencer
nem ser lembrado
mas para existir

Porque esperança
não é promessa
é chama
dessas que tremem
mas não se apagam

e enquanto ela acesa estiver
o resto
a gente ajeita
pra continuar
mesmo ferido
mesmo vazio
mesmo sem garantias
mas vivo.

Nota do autor

    Escrevi este poema sem a intenção de consolar.
Ele nasce de uma época em que as grandes promessas já não convencem, em que o heroísmo soa artificial e a esperança precisa ser pequena para ser honesta. Não há aqui desejo de superação espetacular, apenas a tentativa de permanecer.
    O eu lírico não busca sentido pleno nem redenção. Ele caminha. Observa. Aguenta. O vazio não é metáfora: é peso. A saudade não é nostalgia: é corrosão. A estrada não conduz a um destino claro, porque este tempo já não oferece chegadas evidentes.    
    Este poema não quer explicar o mundo.
    Tenta apenas testemunhar o peso de existir no próprio tempo —
nem antes, nem depois, mas agora.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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terça-feira, outubro 21, 2025

Se voltasses...

Quando a ausência permanece — e a saudade floresce em silêncio.

✍️
Se voltasses agora,
talvez não me reconhecesses.
nem meu olhar,
nem a quietude no lugar das palavras.

o chão que pisavas
já não cede — não faz poeira.
a chuva voltou com a primavera
e eu voltei
a ver a beleza das cores.

o barulho que deixaste em mim
virou ruído, quase silêncio —
acomodou-se onde antes havia agitação.

acho que não espero mais,
mas, às vezes,
um travesseiro a mais na cama,
a xícara extra no café,
me traem.

certas ausências
não se distanciam,
não cortam o cordão umbilical —
apenas se disfarçam
de rotina.

se voltasses,
verias em mim
um jardim que floresceu
aguardando alguém para colher.
talvez à tua espera.
não sei.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, setembro 16, 2025

Volto Já

Um instante de pausa para reencontrar a mim mesmo

✍️
Me ausentarei um pouco —
mas regressarei mais leve,
desatando o nó do cansaço
com os dedos da paz,
em torno de mim farei um laço.

Cuidarei do que em mim
grita calado:
um pouco de vida sem manual,
um sopro de rebeldia
contra o relógio acelerado.

Catarei silêncios nas bordas do eu,
observarei maritacas tagarelas nas copas em festa,
ouvirei o bem-te-vi que canta e retorna,
vereis pássaros migrando no instante comum,
e sentirei o riso manso das árvores.

Encantarei-me com o sorriso de criança,
beberei água de torneira,
ei de molhar os cabelos na torrente da cachoeira,
cruzarei o céu apenas com um olhar,
sobrevoarei neve, sertão e mar.

Deixarei de ser, por um instante,
um número solto no sistema.
Andarei como andarilho de nuvens,
borrifarei no asfalto quente
o perfume da infância guardada.
Soletrarei com o vento sussurrando versos
de Cora, Vinicius, Cecília e Adélia,
e lembrarei dos poetas
da minha Penápolis.

Conversarei com o tempo no banco da praça —
como sempre, ele me pedirá um gole do verão
e ainda me dará alguns conselhos.
Sempre confio naquele ancião do saber,
entregando-lhe a água parada,
encontrando um sentido renovado.

Na brevidade de um fechar de olhos —
minutos que valerão por um dia —
ensaiarei respirar fundo,
encostando-me no tronco da figueira.
Na dança do ponteiro graúdo,
sentir-me-ei maior
que qualquer antônimo de miúdo.

Desviarei um tiquinho das urgências
e talvez — quem sabe — sonharei...
ao abrir meus olhos.

Voltarei, como um soldado deseja voltar —
não das guerras do mundo,
mas das batalhas invisíveis do interno.
E trarei comigo:
não armas de canhão,
mas flores nos bolsos,
uma lucidez no olhar
e vontade de me abraçar.

Então, cidadão —
ainda que seja só por agora,
não pautarei minha vida
pela sua urgência.
Um pouco de mim, só pra mim.

Fique tranquilo, não é abandono,
é cuidado próprio.
Volto já.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, setembro 02, 2025

A Vida em 4 Operações

Somando instantes, multiplicando sentidos — porque viver é mais sobre sentir do que contar.

✍️ 
A vida tem uma matemática que nos favorece.
Um jeito diferente de usar a calculadora:
não para contar cédulas ou números,
mas para medir, sem pressa nem precisão,
o café quente em manhãs frias,
o sol que atravessa a fresta da janela,
o riso que explode da boca de alguém na rua,
o tropeço na calçada que não nos derruba.
São adições, multiplicações de momentos simples e belos
que fazem do viver uma aquarela.

Não é que não exista subtração,
nem divisão —
como a enfermidade que chega sem avisar,
a morte que leva quem amamos,
o desemprego que bate à porta,
o acidente que não pede licença,
a rispidez na resposta de alguém,
os tantos olhares sem crença.

Mas são tantas outras somas positivas,
frente aos dissabores,
que até uma criança percebe
que a vida ganha de goleada.

Se há um instante em que a morte vence,
como um conta-gotas que chega ao fim,
quantos outros dias se oferecem para somar?
E tantos saldos para multiplicar:
passos no chão da cidade, vento nas árvores,
pássaros disputando os ipês floridos,
a fila do mercado que insiste em ensinar paciência,
a criança que cresce — nossa descendência,
a professora que leciona com eloquência.

São os pequenos gestos diários,
ao longo do percurso,
que definem se vivemos mais
ou morremos mais durante a jornada.

E eu escolho ficar com o que tem mais vida,
ainda que seja em doses mínimas,
todos os dias.
No gesto de ajudar alguém sem perceber,
no nascer tímido de uma fonte límpida
na rachadura do concreto,
na descoberta de dois corações pulsando,
e se abrigando num mesmo corpo,
na chuva fina que alivia o clima seco,
no cheiro da comida subindo da cozinha,
no doce entregue escondido pela vó aos netos —
quase um ato delinquente,
no som dos sapatos batendo no asfalto,
na conversa que se perde
e se reencontra na próxima esquina,
na poesia solta nos posts,
no refrão de uma MPB esquecida no disco de vinil,
na vontade de vencer desse povo do meu Brasil.

Cada dia vivido é moeda guardada no bolso da alma.
Cada riso, cada olhar, cada respiração
é soma que cresce, lucro que ninguém toma,
um infinito resumido em soma.

E quando o ciclo se fechar,
que a gente possa olhar com carinho
no derradeiro segundo existente
e enxergar uma vida que valeu a pena:
porque vivemos mais do que morremos,
carregamos um mundo inteiro de pequenas alegrias,
e valeu a decisão de viver vivendo.
E que a vida, no fundo,
foi
menos dívida
e mais dividendo.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, julho 22, 2025

Quero

 


Meus lábios entreabertos
escutam os sussurros da minha alma
no silêncio dos dias que se amontoam.
Trago tempestades tatuadas na pele,
e um silêncio que sangra em meio a sorrisos —
quero gritar.
✍️
Os olhos indicam verdades escondidas,
enquanto as palavras agonizam na garganta.
Aprendi a calar para não criar desordem —
enquanto o caos ordenado se abriga em meu peito,
quero sair de mim.
✍️
Cada gesto contido grita em segredo,
cada riso forçado esconde um naufrágio.
Falar seria quebrar a moldura do mundo,
mas viver calado é perder a essência —
quero existir.
✍️
Sigo entre o escuro do quarto
e a falta de luz da cozinha,
quero janelas abertas.
✍️
Ouço minha voz interior,
exorcitando os demônios internos,
dizendo para eu viver um dia por vez...
deixei de querer, decidi fazer.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 15, 2025

A Bagagem


















A vida me deu uma mala grande
quando eu ainda era pequeno,
e vontade demais de viver.
✍️
Expectativa versus realidade —
despida e sem cozimento.
Tantos mundos passaram por mim,
sem que eu pisasse neles,
sem que eu visse seus horizontes.
✍️
Então guardei passagens que não usei,
bilhetes amarelados no fundo da gaveta,
destinos que só viajei de faz de conta.
✍️
No trajeto, dobrei sonhos,
coloquei no fundo da mala —
como quem espera o dia certo
que nunca chega.
✍️
A mala estava pesada.
Não pelo que levava,
mas pelo que eu não deixava
pelas certezas que eu mantinha.
✍️
Mas hoje, enfim, abri a mochila.
O sol raiou como o brilho da infância.
Vesti um sonho antigo,
me pus em estado de despertar
e segui mais leve —
com menos medo
e mais caminho,
mais dúvidas
e menos certezas.
✍️
E era isso que eu precisava.
Mais do que conhecer a estrada,
perder-me em mim
para encontrar-me antes do fim.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 08, 2025

Entre as Horas, Silêncio

























Entre o som do despertador e o café no fogo,
nasce um mundo fora do Plantão News.
Um broto rompe a terra.
Um bebê ensaia seu passo inaugural.
✍️
No céu, uma nuvem se desenha —
e logo se apaga, como quem esquece de onde veio.
✍️

Corremos, apressados, com pressa de não chegar.
A vida, finita, pincela sua aquarela no romper dos dias.
✍️
Dormimos com lembranças do brilho azul nos olhos,
e acordamos cansados de nós.
✍️
O tempo não tem culpa:
é só um rio seguindo sua sina.
Somos nós que represamos o instante
e, depois, gritamos enchente.
✍️
Hoje, deixei os ponteiros de castigo.
A varanda me chamou devagar.
O sol caiu feito lágrima no horizonte —
e juro que ouvi o barulho das cores.
✍️
As estrelas, tardias como o poeta que sou,
não tiveram pressa de se acender no firmamento.
Só brilharam quando o escuro aceitou ficar.
✍️
Chegar inteiro é mais que vencer.
É saber que até o silêncio
tem verso escondido
nas entrelinhas do tempo.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano


terça-feira, julho 01, 2025

O Próximo Segundo é Inédito














Ainda tem vento que não tocou meu rosto,
e café que vai aquecer lembranças que nem vivi.
Moram em mim viagens adormecidas em algum canto do desejo:
conhecer o Cristo de braços abertos,
visitar o frio que desenha silêncios em Campos do Jordão,
as coloridas cerejeiras de Tóquio,
o outono dourado de Nova York,
o sol batendo nas dunas de Jericoacoara,
passear pelas páginas da Bienal de São Paulo,
onde a vida, talvez, mude de assunto sem avisar.
✍️
Ainda tem música que vai dizer seu nome
num refrão distraído,
e meu abraço, calado, esperando por ti
nas noites em que só a brisa me visita.
✍️
Tem jardim que vai florir
sem pedir licença ao último inverno,
e uma risada que vai escapar
como quem divide a vida a dois, sem intervalo.
✍️
Ainda tem coisa boa por vir —
não por sorte,
mas porque costurei esperança no avesso dos dias,
mesmo quando tudo parecia desfiar.
✍️
E quando chegar,
quero estar aqui.
Com as partes que doeram,
mas também com tudo o que esperei.
✍️
Porque viver é isso:
não desistir de acreditar
no que ainda está por vir,
no inédito segundo seguinte.

✍️ @opoetatardio – Pedro Trajano


quarta-feira, junho 25, 2025

Heróis de Fumaça


















Quando o mundo grita no noticiário,
eu me recolho no silêncio da história.
Lembro que a verdade, mesmo pisoteada,
sempre encontra brechas por onde florescer.
✍️
Já marcharam sobre este mundo inúmeros tiranos —
com fardas ou discursos doces, fingindo ser santos;
de um lado, de outro — ou pregando
a falsa neutralidade do centro.
✍️
Prometeram céus; entregaram ruínas.
Genocidas travestidos de justos,
vendedores de falsa esperança,
heróis de fumaça.
✍️
Mas nenhum deles ficou.
Todos, um a um, tombaram —
porque são altos no discurso,
mas ocos no legado.
O tempo não luta — ele apaga.
E apaga sem fazer alarde.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, junho 17, 2025

O Valor de Sentir
















Foi quando parei de fugir
— e não faz tanto tempo —
e encarei o medo de frente —
sem atalhos, sem escudos —
que entendi: sentir é coragem,
e chorar não diminui.
Integra. Humaniza.
✍️
Aceitar o vazio
é como abrir janelas antigas:
deixar o vento entrar
e varrer o pó das ausências.
✍️
A dor pode não ser a inimiga.
Talvez seja estrada,
é amadurecer em movimento,
é travessia com o peito aberto.
✍️
Só quem sente, vive.
E só quem vive, transforma.
✍️
Na coragem de não filtrar a alma,
começa, enfim,
o verdadeiro despertar.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, maio 13, 2025

Reaprender a Esperar

É preciso mais paciência com as demoras.
Nem tudo acontece no deslize dos dedos,
os amores verdadeiros pedem tempo, não pressa.

O café esfria, o ônibus atrasa,
nem sempre se veem dois riscos azuis na tela,
a resposta não chega — mas a vida continua.

As estações do ano seguem sendo quatro,
uma criança ainda leva nove meses para nascer,
não existe algoritmo que ensine a viver.

Enquanto espero, desaprendo a correr.
Reaprendo a respirar devagar.

Porque, às vezes,
o que demora
é o que vale a espera.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, maio 06, 2025

Minha Viagem

Entrei em terra esquecida, sem rumo, sem mapa,
me perdi nos becos sem saída, onde o eu que sou se esconde.
Andei por estradas dentro de mim, sem saber o que buscava,
rastejei por caminhos estreitos, sem pressa de sair,
afastando-me do coração,
onde os medos que sempre evitei me esperavam.

Sentei-me com sombras antigas,
tomei café com a amargura,
encarei o que sempre neguei.
Bati às portas da minha própria história,
mas só os "demônios" internos responderam.
Pedi perdão, ouvi sarcasmo,
até entender que eu mesmo alimentava os dois lobos.

Agora sigo, deixando as cicatrizes à mostra,
não me envergonham, são testemunhas.
Jurei partir, e a saída está logo ali.
Sou estrada, sou viagem, sou meu próprio destino.
Sou homem feito, mas ainda visto a pele de um menino.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

quinta-feira, maio 01, 2025

Quando Era Só Viver

Esqueci de ouvir o tinir dos talheres,
na pressa de engolir o almoço.
Não reparei no riso tímido da minha filha,
nem no prato que minha esposa pôs com carinho,
enquanto eu respondia mais uma mensagem.

Passei por ipês em flor,
com os olhos presos na tela do celular,
enquanto relâmpagos dançavam no horizonte—
eu estava ausente do momento presente.

Quantas coisas fui deixando pra depois,
como se a vida fosse algo que se salva em nuvens.
Mas ela não tem download,
não tem botão de pausa.

Hoje, lembro do que quase vivi,
como quem tateia um sonho já esquecido.
E, enfim, compreendi:
o ouro só brilha
diante dos olhos de quem sabe admirar.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano


terça-feira, abril 22, 2025

Andarilho que Sou


Nasci em um calendário desatualizado,
carrego o tempo como quem veste um casaco gasto.
Desejei estações que nunca foram minhas,
ouço canções de um tempo que nunca vivi.

Sou um andarilho entre mudanças;
faço ninhos no chão para escapar do acaso.
Trago pedras nos bolsos,
para não ser arrastado pelo vento.
Tenho cicatrizes bordadas a fogo lento.

Às vezes caminho sem rumo, sem bússola,
meus passos tocando ruas que não me reconhecem.
Fui sombra de lamparinas antigas,
já morei sob telhados sem luz elétrica.

Sou uma mistura de analógico com digital,
um código-fonte perdido entre cartas escritas à mão.
Já escrevi bilhetes em lenço de papel;
hoje, digito em teclado virtual.

Já fui cortador de cana,
me perdi entre cafezais.
Trocaram meus lápis por enxadas.
Escrevi minha infância sob o sol;
meus primeiros sonhos, hoje, são devaneios.

Joguei bola descalço,
tomei banho de cachoeira,
ralei os joelhos no cascalho.
Sei o que é beber leite no curral.

Disseram que venci
quando me aplaudiram na colação de grau.
Vislumbrei o feito, até que percebi
que o diploma era um passo, não a chegada.

Hoje, sou matéria em trânsito:
entre o que se forma e se desfaz.
Mas não se engane:
posso ser rocha, água, guerra e paz.

Carrego nas costas poeiras do século vinte.
Companheiro das máquinas, compartilho ideias.
Num "Admirável Mundo Novo", às vezes me perco,
sem saber se sou analógico ou digital.

Por muitas vezes visitei o passado,
mais vezes do que precisava.
Estou escolhendo viver no presente,
e tenho encontrado razões contundentes.

Hoje, meus poemas voam entre nuvens,
se espalham em telas,
às vezes se perdem entre minha mente e o algoritmo.
Mas a poesia — essa...
essa me encontra onde eu estiver.
Temos nos encontrado intimamente na sala de estar.

Neste poema autobiográfico e reflexivo, descrevo minha trajetória como um andarilho do tempo — alguém que caminha entre o passado e o presente, entre o analógico e o digital, entre o século XX e o XXI.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

sexta-feira, março 28, 2025

🍷 Um Brinde ao Agora 🍷


Brindemos ao instante presente,
onde o vento sussurra segredos às folhas da primavera,
e, no perfume da rosa, o tempo descalço me encontra vivo.
O canto dos pássaros dissolve os ruídos do instante,
desfaço-me da pressa cega,
dos passos que tropeçam na própria sombra.

Brindemos ao que fomos, ao que somos, ao que seremos,
sem carregar as cicatrizes do passado como âncoras,
sem temer tempestades que talvez nunca cheguem.
Aqui e agora é tudo o que temos,
um brinde ao presente,
que brota como orvalho na pele do tempo.

Brindemos à sabedoria dos dias,
que ensina a ser raiz mesmo quando os ventos rugem,
a aceitar o que não se move
e a lutar pelo que ainda pulsa.
Nas cavernas da dor, também há frestas de luz,
na quietude da alma, o essencial se revela,
pois a paz floresce da semente interna.

E assim, brindemos ao que é efêmero e, ao mesmo tempo, eterno,
ao presente que, vivido por inteiro,
desata os nós do passado e do futuro.
Que cada gole celebre em silêncio,
e que cada passo nos leve ao âmago da existência,
onde o agora se expande como um céu sem fronteiras,
e a eternidade pulsa em cada segundo vivido.

opoetatardio

* Direitos autorais Reservados

sábado, março 08, 2025

Mulher



Tu és a força que move a engrenagem,
a chama que arde sem se consumir.
Ergueste-te em coragem, domaste ventos,
regaste o solo, abri-te caminhos.

És raiz e folhagem,
flor e aço,
abraço que sustenta e acolhe,
mãos que constroem e transformam.

Geraste vidas em teu ventre,
mas também as ensinaste a voar.
Não és sombra nem coadjuvante:
és o futuro, o presente, a história em movimento.

Não há muralhas que te detenham,
nem obstáculos que te sufoquem,
nem desafios que te vençam.
Não cabes em um único dia:
mereces ser admirada a cada aurora,
pois o mundo gira na força da tua ousadia.


opoetatardio
08 março2025

Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)