Cap. 1: Ninhos e Pensamentos
✍️O ipê floresceu! O professor explicava Probabilidade e Estatística, enquanto eu, envolvida em meus pensamentos, distraída, observava a paisagem do pátio através das vidraças da sala. As flores coloriam o ambiente com seu vibrante tom de rosa. Conheço todos os rostos dentro dessa sala. Estudamos juntos desde o ensino fundamental, exceto o Jorge, que entrou para nossa turma este ano após seus pais se mudarem da capital para o oeste paulista. "Trabalho", ele me disse alguns dias atrás, quando conversamos na cantina. Suspirei profundamente, perdendo-me em pensamentos, apenas com aquele sorriso. Além de seus cabelos rigorosamente bagunçados, desalinhados de forma organizada, seus olhos azuis destacavam-se em contraste com sua pele bronzeada, evidenciando seu amor pelo ar livre. Talvez eu tenha exagerado um pouco nas minhas observações sobre o garoto mais bonito da sala, porque a atmosfera ficou um pouco estranha depois disso, já que ele percebeu que eu o observava.
Graças a Deus, a Nina surgiu do nada e me pediu a matéria de português da aula de ontem em que ela havia faltado. Entreguei a ela, mas percebi que mal me encarou, criando um clima pesado que o Jorge também notou, mesmo assim de forma não intencional ela acabou me salvando daquele momento, no mínimo inusitado, por assim dizer. Aproveitei a deixa e também me retirei do local deixando o Jorge sem entender muito o que estava acontecendo.
Nina é minha melhor amiga desde o jardim de infância. Sempre fomos confidentes naturais, mas no momento, estou preocupada com ela, sinto que algo está acontecendo desde o início do ano, pouco a pouco ela foi se distanciando de mim e de outras amigas da sala, e se tornando displicente com os estudos.
Nina, até o ano passado, sempre teve um jeito fascinante e inspirador. Dona de cabelos negros que caíam em suaves ondas sobre seus ombros, adicionando um toque de sofisticação à sua aparência, olhos castanho-escuros profundos e expressivos, revelando uma mistura de determinação e vulnerabilidade, Nina, sem dúvida, era a menina mais bonita da escola, aquela que fazia os garotos suspirarem, embora ela não desse muita importância pra essa posição. Seu foco sempre foi nutrir bons relacionamentos de amizade.
No entanto, ultimamente tenho percebido que ela está perdendo seu brilho, está tão diferente, quase irreconhecível. Preciso descobrir o que está acontecendo.
As belas flores rosas do ipê escondem parcialmente um ninho vazio de um casal de pombas em um galho alto. Os filhotes deixaram o abrigo seguro recentemente e alçaram voos desengonçados, como se estivessem inseguros. Por alguns dias, eles vagaram assustados pela escola, pois ainda não tinham habilidades suficientes para voar para além deste prédio. Corriam o risco de serem pisados acidentalmente por alguém ou até mesmo se tornarem almoço de algum predador. Era visível o medo que sentiam. Mas ontem de manhã, eles conseguiram voar mais alto que o muro e desapareceram. Seguiram o curso natural, fizeram o que seus pais lhes ensinaram.
O primeiro semestre do último ano do ensino médio está a algumas semanas de terminar. Dentro de alguns meses, nos despediremos, cada um seguindo seu próprio caminho. Uma grande revoada acontecerá no terceiro ano B. Será que todos abandonarão seus ninhos seguros para alçar voos solitários em novos horizontes? Voar do ninho seguro já foi tudo o que desejei, mas hoje não tenho mais tanta certeza.
O perfume adocicado das flores do ipê lá fora invade a sala, coincidentemente neste Dia Internacional do Meio Ambiente...um verdadeiro presente da natureza! De onde estou sentada consigo avistar perfeitamente a velha árvore, imponente e bela. Foi meu pai quem me ensinou a apreciar os ipês; aqui em Penápolis eles são abundantes. Meu pai costuma parafrasear Augusto Cury, dizendo: "é preciso apreciar o belo". Ele me ensinou a enxergar nos ipês uma das expressões de beleza da natureza. Até setembro, eles continuarão a florescer em Penápolis. Além do rosa, ainda florescerão os ipês amarelos e brancos. Dentre todos, é com o branco que mais me identifico, é como se eu tivesse uma conexão quase espiritual com ele, pois é um ipê dessa cor que oferece sombra ao túmulo de Leonardo, meu irmão. Que saudade! Após sua morte, muitas certezas deixaram de existir em minha cabeça.
Cap. 2: Sombras Perigosas

