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quarta-feira, abril 23, 2025

Antes de Mais Um Dia

Ali, no fim da noite,
meus pés tocam o limite do que sou.
Uma neblina antes do amanhecer
me veste com perguntas
que desconheço —
e que nem mesmo meu inconsciente ousa responder.

O despertador silencia meus sonhos,
e eu, tão pequeno, tão inteiro,
sou apenas um pensamento do abismo
que contempla a si mesmo em mim,
antes de mais um dia começar.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 

terça-feira, abril 22, 2025

Andarilho que Sou


Nasci em um calendário desatualizado,
carrego o tempo como quem veste um casaco gasto.
Desejei estações que nunca foram minhas,
ouço canções de um tempo que nunca vivi.

Sou um andarilho entre mudanças;
faço ninhos no chão para escapar do acaso.
Trago pedras nos bolsos,
para não ser arrastado pelo vento.
Tenho cicatrizes bordadas a fogo lento.

Às vezes caminho sem rumo, sem bússola,
meus passos tocando ruas que não me reconhecem.
Fui sombra de lamparinas antigas,
já morei sob telhados sem luz elétrica.

Sou uma mistura de analógico com digital,
um código-fonte perdido entre cartas escritas à mão.
Já escrevi bilhetes em lenço de papel;
hoje, digito em teclado virtual.

Já fui cortador de cana,
me perdi entre cafezais.
Trocaram meus lápis por enxadas.
Escrevi minha infância sob o sol;
meus primeiros sonhos, hoje, são devaneios.

Joguei bola descalço,
tomei banho de cachoeira,
ralei os joelhos no cascalho.
Sei o que é beber leite no curral.

Disseram que venci
quando me aplaudiram na colação de grau.
Vislumbrei o feito, até que percebi
que o diploma era um passo, não a chegada.

Hoje, sou matéria em trânsito:
entre o que se forma e se desfaz.
Mas não se engane:
posso ser rocha, água, guerra e paz.

Carrego nas costas poeiras do século vinte.
Companheiro das máquinas, compartilho ideias.
Num "Admirável Mundo Novo", às vezes me perco,
sem saber se sou analógico ou digital.

Por muitas vezes visitei o passado,
mais vezes do que precisava.
Estou escolhendo viver no presente,
e tenho encontrado razões contundentes.

Hoje, meus poemas voam entre nuvens,
se espalham em telas,
às vezes se perdem entre minha mente e o algoritmo.
Mas a poesia — essa...
essa me encontra onde eu estiver.
Temos nos encontrado intimamente na sala de estar.

Neste poema autobiográfico e reflexivo, descrevo minha trajetória como um andarilho do tempo — alguém que caminha entre o passado e o presente, entre o analógico e o digital, entre o século XX e o XXI.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)