Encontre aqui:

Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, agosto 21, 2025

Nem Todos Ninhos Ficarão Vazios

Cap. 1: Ninhos e Pensamentos

✍️O ipê floresceu! O professor explicava Probabilidade e Estatística, enquanto eu, envolvida em meus pensamentos, distraída, observava a paisagem do pátio através das vidraças da sala. As flores coloriam o ambiente com seu vibrante tom de rosa. Conheço todos os rostos dentro dessa sala. Estudamos juntos desde o ensino fundamental, exceto o Jorge, que entrou para nossa turma este ano após seus pais se mudarem da capital para o oeste paulista. "Trabalho", ele me disse alguns dias atrás, quando conversamos na cantina. Suspirei profundamente, perdendo-me em pensamentos, apenas com aquele sorriso. Além de seus cabelos rigorosamente bagunçados, desalinhados de forma organizada, seus olhos azuis destacavam-se em contraste com sua pele bronzeada, evidenciando seu amor pelo ar livre. Talvez eu tenha exagerado um pouco nas minhas observações sobre o garoto mais bonito da sala, porque a atmosfera ficou um pouco estranha depois disso, já que ele percebeu que eu o observava.
    Graças a Deus, a Nina surgiu do nada e me pediu a matéria de português da aula de ontem em que ela havia faltado. Entreguei a ela, mas percebi que mal me encarou, criando um clima pesado que o Jorge também notou, mesmo assim de forma não intencional ela acabou me salvando daquele momento, no mínimo inusitado, por assim dizer. Aproveitei a deixa e também me retirei do local deixando o Jorge sem entender muito o que estava acontecendo.
    Nina é minha melhor amiga desde o jardim de infância. Sempre fomos confidentes naturais, mas no momento, estou preocupada com ela, sinto que algo está acontecendo desde o início do ano, pouco a pouco ela foi se distanciando de mim e de outras amigas da sala, e se tornando displicente com os estudos.
    Nina, até o ano passado, sempre teve um jeito fascinante e inspirador. Dona de cabelos negros que caíam em suaves ondas sobre seus ombros, adicionando um toque de sofisticação à sua aparência, olhos castanho-escuros profundos e expressivos, revelando uma mistura de determinação e vulnerabilidade, Nina, sem dúvida, era a menina mais bonita da escola, aquela que fazia os garotos suspirarem, embora ela não desse muita importância pra essa posição. Seu foco sempre foi nutrir bons relacionamentos de amizade.
    No entanto, ultimamente tenho percebido que ela está perdendo seu brilho, está tão diferente, quase irreconhecível. Preciso descobrir o que está acontecendo.
    As belas flores rosas do ipê escondem parcialmente um ninho vazio de um casal de pombas em um galho alto. Os filhotes deixaram o abrigo seguro recentemente e alçaram voos desengonçados, como se estivessem inseguros. Por alguns dias, eles vagaram assustados pela escola, pois ainda não tinham habilidades suficientes para voar para além deste prédio. Corriam o risco de serem pisados acidentalmente por alguém ou até mesmo se tornarem almoço de algum predador. Era visível o medo que sentiam. Mas ontem de manhã, eles conseguiram voar mais alto que o muro e desapareceram. Seguiram o curso natural, fizeram o que seus pais lhes ensinaram.
    O primeiro semestre do último ano do ensino médio está a algumas semanas de terminar. Dentro de alguns meses, nos despediremos, cada um seguindo seu próprio caminho. Uma grande revoada acontecerá no terceiro ano B. Será que todos abandonarão seus ninhos seguros para alçar voos solitários em novos horizontes? Voar do ninho seguro já foi tudo o que desejei, mas hoje não tenho mais tanta certeza.
    O perfume adocicado das flores do ipê lá fora invade a sala, coincidentemente neste Dia Internacional do Meio Ambiente...um verdadeiro presente da natureza! De onde estou sentada consigo avistar perfeitamente a velha árvore, imponente e bela. Foi meu pai quem me ensinou a apreciar os ipês; aqui em Penápolis eles são abundantes. Meu pai costuma parafrasear Augusto Cury, dizendo: "é preciso apreciar o belo". Ele me ensinou a enxergar nos ipês uma das expressões de beleza da natureza. Até setembro, eles continuarão a florescer em Penápolis. Além do rosa, ainda florescerão os ipês amarelos e brancos. Dentre todos, é com o branco que mais me identifico, é como se eu tivesse uma conexão quase espiritual com ele, pois é um ipê dessa cor que oferece sombra ao túmulo de Leonardo, meu irmão. Que saudade! Após sua morte, muitas certezas deixaram de existir em minha cabeça.

Cap. 2: Sombras Perigosas

quinta-feira, janeiro 30, 2025

O Pequeno Caos do Dia a Dia


Os últimos raios de sol sucumbiam lentamente às densas nuvens carregadas que se acumulavam no horizonte. O céu, antes vibrante e azul, transformava-se em um mosaico de tons acinzentados, enquanto o calor abafado anunciava a chegada iminente de uma tempestade. Na frente da casa, um grande ipê estendia sua copa robusta, e seus galhos, inquietos sob as rajadas de vento, balançavam as folhas escuras, espalhando um cheiro de terra seca prestes a ser molhada. No quintal, o pé de mamão, carregado de frutos ainda verdes, fazia companhia a alguns pés de couve. Borboletas, após depositarem seus ovos nas folhas verde-escuras, alçavam voo em busca de abrigo, enquanto pássaros apressavam-se para se proteger da chuva que se avizinhava.
— Elas não resistirão la fora se começar a chover! — exclamou Cláudia, levantando-se bruscamente do sofá e desligando a TV. Seu cabelo desalinhado e os óculos ligeiramente tortos denunciavam que ela estava completamente absorvida na trama de 'Quando o Telefone Toca', uma série coreana que acompanhava fielmente nos últimos dias de suas férias escolares.

segunda-feira, janeiro 20, 2025

O Círculo da Luz

Acordou dentro de um bosque sombrio. O ar denso e frio da noite lhe arrepiava os pelos do corpo. As mãos estavam muito frias, contrastando com o calor escaldante lhe percorria as veias. Descalça, cabelos soltos e revoltos, no corpo apenas uma longa camisola branca cuja barra que lhe chegava aos tornozelos parecia parcialmente queimada. Confusa e desnorteada Estela se perguntou em voz alta:
— Como cheguei aqui? Onde estou?
O lugar era uma visão estranha, inquietante e aterrorizante, tal qual um cenário mal construído para um filme de terror. 
O bosque se estendia como um labirinto esquecido, parado no tempo. As árvores eram gigantes pareciam estar ali a uma dezena de gerações. Com troncos marcados por rachaduras que pareciam ter sido esculpidas por garras afiadas e galhos retorcidos que formavam um teto desigual. Fragmentos de um luar frio e distorcido mal conseguiam penetrar e atingir o chão. Raízes grotescas e expostas estendiam se pelo solo, parecendo serpentes, entrelaçando-se com pedras gastas e trincadas que formavam caminhos aparentemente sem destino. Algumas pedras estavam cobertas de musgo, enquanto outras exibiam manchas escuras, parecidas com sangue seco, testemunhas de que algo de mau aconteceu ou continuava acontecendo ali.

sexta-feira, novembro 29, 2024

Eclipse

   Ela abriu a porta e lhe entregou as chaves do seu coração sem hesitar, como quem recebe uma visita esperada, sem nada nas mãos. Ele aceitou entrar. Não lhe prometeu nada, como ela sonhara, nem fez declarações apaixonadas, como ela idealizara, mas com a quietude de quem simplesmente está ali: presente e ausente, em um equilíbrio frágil.
    Enquanto o eclipse cobria a lua, eles se fundiram em um instante que parecia eterno. O silêncio entre os dois parecia um acordo tácito, mas talvez fosse apenas a aceitação dela. Entretanto, eclipses não duram. Quando a sombra se dissipou e a lua cheia preencheu o céu, trazendo luz à noite, ela percebeu o vazio que restara, como uma ausência impregnada no fundo do seu ser.
    Ele partiu sem alarde, deixando para trás uma ausência quase física. Um amor que nunca foi por inteiro, que deixou apenas cicatrizes e mágoas, mas que, de alguma forma, a marcou profundamente. A carência, pensou ela, é um monstro que só ataca quem a alimenta.


Pedro Trajano

domingo, setembro 01, 2024

A 3ª Porta

 O som dos pingos d’água batendo no chão é o primeiro som que ouço ao despertar. Abro os olhos e percebo que já é noite; o ambiente está escuro. As gotas continuam a cair em um ritmo compassado, como o pêndulo do antigo relógio da sala da casa dos meus pais. Embora isso já faça muitos anos, a lembrança persiste. Hoje, nem o relógio nem a parede onde ele estava pendurado existem mais, e acho que nem a casa, pois meus pais vivem apenas nas minhas memórias: algumas boas, outras nem tanto e elas vêm e vão de maneira fugaz.

    Minha cabeça dói intensamente, como se os pingos batessem diretamente nela, que lateja por toda a circunferência como se estivesse prestes a explodir. A dor é quase insuportável, uma pressão como um cinto de ferro se expandindo de dentro para fora do meu crânio. Mas tenho que agradecer pelo escuro; luzes artificiais durante essas crises parecem penetrar minhas retinas e se alojar no cérebro, intensificando a dor como agulhas perfurando minha cabeça. É estranho; não me lembro de ter visto a noite chegar. Será que desmaiei aqui por causa da náusea? Preciso de um remédio.

terça-feira, julho 09, 2024

Parada

O relógio marcava pouco mais de duas horas da manhã. Os números brilhavam no painel tecnológico do carro alugado. Após cinco horas ininterruptas de viagem, aquela era a primeira parada que Gilberto fazia. Estava a poucos quarteirões do destino final; bastava seguir a rua deserta à sua frente, virar à direita, passar em frente à prefeitura de Penápolis e seguir até o próximo quarteirão. Já conhecia o caminho muito bem até o ponto de entrega indicado pelos contratantes. Deixaria a encomenda sem fazer perguntas, como sempre; pois discrição era fundamental nesse seu trabalho atual. Pelo serviço, seria bem remunerado, voltaria para Campo Grande e, na manhã seguinte, pagaria a última prestação para o médico fazer a cirurgia que salvaria a vida de sua esposa. No entanto, agora que conseguira o valor que precisava, enfrentava um dilema: deveria abandonar esse trabalho tão lucrativo?

sexta-feira, janeiro 26, 2024

Sequestro

    Tic tac, tic tac... uma corrida contra o tempo, prometi sem querer, só por complacência a uma mãe em prantos, que eu encontraria a sua filha desaparecida, um bebê de dez meses. Ela bateu no meu portão, moro com a minha esposa neste bairro a pouco tempo e mesmo assim aquela mulher sabia que sou um investigador da polícia civil. Pensei rápido e por fim concordei!
    Aceitei com um pouco de resistência a ideia de deixar nossa casa no centro. No entanto, minha esposa acabou me convencendo de que o melhor que poderíamos fazer era deixar para trás um local que trazia lembranças trágicas para nós. Tivemos uma grande perda e prometi a ela que faria qualquer coisa para que eu pudesse vê-la feliz novamente. Os medicamentos têm causado melhorias significativas nela, a ponto de eu não temer mais que ela tente o suicídio novamente.

domingo, junho 04, 2023

Sob as águas

Sou filha de pescadores, cresci às margens do rio Tietê pescando e nadando.  Já adulta, afastei-me do rio, mas voltei a pescar motivada pelo meu marido que mesmo não gostando da atividade me incentivou a fazê-lo, pois percebia o quanto isso me fazia falta.

Era sábado e descíamos o rio em um barco, as águas estavam calmas então encontramos facilmente um bom lugar para aportar: embaixo de uma figueira tombada, onde meu pai e eu pescávamos quando eu era pequena. Os galhos beijando o rio remetiam-me a uma infância feliz.

A luz da lua cheia banhava o rio e as estrelas no céu evocavam memórias distantes em volta das fogueiras, onde meus tios contavam histórias de criaturas místicas...

sábado, maio 27, 2023

Anas


Minha história de vida, se fosse contada por um comediante em um show de stand-up, por um bom, bom não, por um ótimo comediante, o melhor que já existiu, talvez arrancasse algum riso dos telespectadores, risos contidos e não gargalhadas. Um pouco daquele riso nervoso, repleto de ironia, que se misturaria às lágrimas e aplausos, mas penso que outras emoções, daquelas menos toleráveis, tenham mais chance de aparecer.
Somos filhas da professora Ana Brandão de Castro e do advogado Augusto de Castro. Trigêmeas. Nossa avó materna repetia quase como que em uma ladainha nos almoços da família que tinha errado só a quantidade de bebês, mas que jamais teve dúvida quanto ao sexo. Era tão grande a empolgação da velha quando falava desse assunto, que parecia que tinha tirado a pedra maior no bingo da quermesse, pois se repetia quase que de forma orquestrada assim como o pêndulo do relógio fixado no alto da parede da sala.
Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)