Encontre aqui:

Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, agosto 05, 2025

A Xícara Trincada

O cotidiano como poesia: afeto, silêncio e beleza no simples viver.

 













Quatro e pouco. Acordo antes da cidade.
A luz da cozinha acende, o cursor do notebook pisca,
o Word em branco pede versos.
Às vezes, a pia ainda carrega lembranças do jantar de ontem:
três pratos, alguns talheres — e um silêncio que respinga.
✍️
Às dez para cinco, colho couve e ora-pro-nóbis no quintal.
Faço um suco verde e entrego um copo à minha esposa.
Ela sai pra caminhar.
Eu fico — e acordo nossa filha ao som de K-pop.
✍️
O café da manhã segue um ritual: crepioca, ovos, frutas.
A liturgia do dia toca de um aplicativo.
Enquanto comemos, falamos de contas, de planos,
da vida que caminha — e também rimos.
✍️
Levo as duas: uma para aprender, outra para ensinar.
Escolas diferentes, mas o mesmo cheiro de giz.
✍️
Volto. Molho a horta. Reviso a agenda.
Olho prazos, penso nos clientes.
Se der tempo, escrevo.
A poesia ainda não me paga — mas sustenta a alma.
Às oito, saio de casa para conquistar o meu dia.
✍️
Minha rotina não é prisão — é afeto encadeado.
Uma espécie de amor em série.
✍️
Entre um afazer e outro, penso:
a vida, às vezes, é como aquela xícara trincada no armário.
A que ninguém escolhe pra visita.
Mas é nela que o café parece estar mais quente.
✍️
Nas redes sociais, o mundo vive em festa:
quase uma orgia de dopamina.
Gente em praias, brindando ao pôr do sol.
Carros caros. Filhos prodígios. Casamentos filtrados.
✍️
Mas isso é só o que se mostra.
A maioria vive como a gente:
entre o despertador e o dia lá fora,
entre boletos e pequenos milagres.
Só que isso — quase ninguém curte.
✍️
A armadilha é tomar o recorte pela realidade inteira.
E esquecer que o extraordinário — quase sempre — se disfarça no comum.
✍️
A vida simples não se exibe.
Ela sussurra.
Talvez por isso não se poste:
porque o essencial não se posta — vive.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, março 18, 2025

Quem Viu a Rosa?

Ao meu redor, a alvorada se desponta como uma sinfonia de cores e movimentos. O sol nascente acaricia-me com dedos de luz, enquanto a brisa matinal dança entre as folhas, sussurrando poemas em línguas ancestrais. O murmúrio da natureza envolve tudo em um abraço acolhedor: pássaros trocam melodias nos galhos próximos, borboletas flutuam como fragmentos de sonho, e um beija-flor me visita, vibrando no ar como um sopro de vida. Minhas pétalas ainda guardam as gotas do sereno da madrugada, testemunhas silenciosas de um renascimento diário.
Por um breve momento, sou apenas eu e o mundo. O silêncio não é ausência, mas presença. Sinto-o como uma carícia do universo, algo que se estende até o âmago do meu ser. O toque do vento não só roça minha superfície, mas penetra minha essência. Sou parte deste todo, e o todo é parte de mim. Cada partícula de ar que desliza por minhas folhas sussurra segredos indecifráveis, e, ainda assim, plenos de significado. Aqui, no delicado equilíbrio entre a existência e a finitude, sei que existo.
Uma joaninha atrevida escala meu caule e repousa sob uma de minhas pétalas. Seu toque, ínfimo e preciso, confirma-me: sou real.
Mas então, o mundo dos homens invade o meu.
Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)