Encontre aqui:

Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens

sábado, março 21, 2026

A única receita que aprendi

Já me perguntaram
e eu disse: não

não sei a receita pra ser feliz
nem sei ao certo
que ingredientes servem
pra expulsar a tristeza

o que aprendi, posso te contar
mas não espere fórmula pronta
a vida nunca me apresentou um manual
só me obrigou a amadurecer

quarta-feira, março 11, 2026

Não Somos Hóspedes

Cada passo abre um caminho
quando o coração consente
não viver ao acaso.

Depois da tempestade
o céu não promete.
Só mostra
que a luz também trabalha
sobre a lama.

Somos parte da história,
mas também a escrevemos
com as mãos,
com os dias,
com o que não recuou.

terça-feira, março 03, 2026

🌱 O Semeador em Silêncio

Quem planta em silêncio também colhe eternidade — generosidade é deixar raízes onde talvez nunca possamos voltar.

✍️
Plantei no meio do concreto
uma semente quase invisível.
Ninguém parou para ver.
Talvez um dia, quando o sol pesar sobre a avenida,
alguém encontre sombra ali
sem saber quem cavou a terra dura.

Não conheço esse rosto futuro.
Mas já me importo com ele.

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Aconselhe a Ti Mesmo

Na vida alheia é fácil ser sábio
como se tudo coubesse num conselho.
Mas na própria reina a dúvida
um silêncio que desmonta certezas.
É simples vestir o papel de conselheiro
difícil é ser guia de si mesmo o dia inteiro.




\


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 ===============

✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

 

segunda-feira, janeiro 12, 2026

O Chão dos Dias

O ano novo chegou para valer.
desmontaram as árvores
recolheram os presépios
as visitas se foram
desarrumaram-se as malas

o cardápio voltou ao necessário
o fim das férias nos olha de perto

Volta-se ao dia comum.
a rotina sem romantização
chega e nos abraça
se aceitarmos.
ela fica.

terça-feira, janeiro 06, 2026

Desejo-lhe

Quando a morte chegar, que te encontre vivo — não apenas de respiração, mas de presença

✍️
Que tua algoz não te encontre sentado
na penumbra de um quarto fechado
mas no dourado vivo de uma tarde
onde o vento insiste em balançar os galhos
e o eco da tua gargalhada invada
as ruas, as praças
E que o brilho dos teus olhos lance luz
às calçadas mal iluminadas.

terça-feira, dezembro 30, 2025

Nômades que Somos

Entre o fim e o começo, um intervalo chamado travessia, ali, o novo ano ganha consciência.

✍️
O que se finda não são os dias
mas o calendário que escapa entre os dedos
O que começa não é tempo novo
mas a chance do que ainda não se fez.


Deixamos o ano que nos abrigou
como quem solta o eco de um “eu te amo” não dito
meses e estações
como velas acesas em silêncio no altar.

quinta-feira, dezembro 18, 2025

"True Crime"

Não foi a cena do crime que pediu close
Foi quem segurava a câmera

Quem apertou publicar
antes mesmo da perícia chegar

Há um pacto invisível
entre o choque e o entretenimento
alguém posta
outro assiste compartilha
e esquece

Nessa dinâmica cega
o medo vira mercadoria
quando encontra vitrine

O algoz ganha personagem
o sofrimento vira dado
e se a dor for grande o bastante
vira tendência viraliza
transforma-se em trilha sonora
de uma produção true crime

Nessa história
a audiência decide
quem pode falar

Chamam de interesse
mas é consumo
Chamam de divulgação
mas é repetição

Engraçado cômico trágico
quando a violência vira roteiro
com gancho e reviravolta
o protagonista é sempre o algoz
ele ganha rosto
e se apaga o olhar
da vítima

O trailer sangra
A versão cinematográfica
romantizada
ganha adeptos

E a família dos mortos
segue vivendo
sem direito a sinopse

Talvez este seja outro crime
a espetacularização da violência
a tragédia virando produto
a narrativa rendendo temporadas
enquanto o lucro
segue intacto

Mas convém lembrar
nada disso é automático

Há sempre um gesto
mínimo
que decide ficar
avançar
ou sair

O clique
essa pequena ética
ainda é do indivíduo.

Nota do autor
    Neste poema, não trato dos crimes em si , não tenho competência nem pretensão para isso. Interesso-me, antes, pela forma como escolhemos observá-los, narrá-los e consumi-los. Não me detenho na figura do "monstro"; esse trabalho pertence a profissionais preparados para investigar, analisar e julgar. O foco aqui é o enquadramento que transforma violência em personagem, a linguagem que converte sofrimento em produto e dor em entretenimento.
    Estes versos não julga plataformas nem absolve o público. Propõe apenas uma pausa para observar um gesto cotidiano, repetido e quase automático, que costumamos chamar de interesse, curiosidade, informação ou até pena. 

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
===============
✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Estradas, Desertos e Flores

O homem contemporâneo. Pós-promessa e pós-ilusão...

✍️
Ando
por estradas que não prometem chegada
carrego no peito
um vazio que não pede explicação
apenas pesa

Há uma saudade sem nome
dessas que não gritam
mas corroem
desfazem certezas
e constroem perguntas

Guardo lembranças do amanhã
futuros que sonhei ontem
e que não vieram
como mensagens nunca lidas
como chuva que escolheu não cair

Depois do boa-noite
fica o corpo
fica o quarto
fica o silêncio
fazendo mais barulho
do que qualquer palavra dita
do que qualquer grito

ou gemido de choro

Neste deserto que chamo de peito
de fases da vida
de cotidiano
cada segundo é atrito
é o incômodo de continuar
quando tudo pede pausa
às vezes meu próprio suspiro
pesa mais
que a gravidade de um planeta inteiro

Há dores que não aprendem a falar
feridas que se deitam
sobre cicatrizes mal curadas
como se o tempo
andasse em círculos
como se sangrar
fosse um hábito
uma solução

Ainda assim
algo em mim se recusa a desistir
a se vitimizar
não por coragem
mas por teimosia
recolho migalhas
acredito em milagres pequenos
desses que não mudam o mundo
mas salvam o dia

A estrada segue
e eu sigo junto
buscando a arquitetura
de um começo possível
nos escombros do que fui
no avesso do avesso
da minha própria realidade

Dentro de mim
uma flor insiste
em nascer onde ninguém regaria

um pássaro canta
mesmo esquecido pelo bando
não para vencer
nem ser lembrado
mas para existir

Porque esperança
não é promessa
é chama
dessas que tremem
mas não se apagam

e enquanto ela acesa estiver
o resto
a gente ajeita
pra continuar
mesmo ferido
mesmo vazio
mesmo sem garantias
mas vivo.

Nota do autor

    Escrevi este poema sem a intenção de consolar.
Ele nasce de uma época em que as grandes promessas já não convencem, em que o heroísmo soa artificial e a esperança precisa ser pequena para ser honesta. Não há aqui desejo de superação espetacular, apenas a tentativa de permanecer.
    O eu lírico não busca sentido pleno nem redenção. Ele caminha. Observa. Aguenta. O vazio não é metáfora: é peso. A saudade não é nostalgia: é corrosão. A estrada não conduz a um destino claro, porque este tempo já não oferece chegadas evidentes.    
    Este poema não quer explicar o mundo.
    Tenta apenas testemunhar o peso de existir no próprio tempo —
nem antes, nem depois, mas agora.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
===============
✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com







quinta-feira, dezembro 04, 2025

Cansaço de Séculos

Outro dia ouvi Ney cantando
o que até então só ouvira de Cazuza.
Aquele verso me acertou no meio do peito:
“transformam o país inteiro num puteiro,
pois assim se ganha mais dinheiro”,
e nem é metáfora; é relatório.

E eu fiquei pensando
que esse circo barato
que eles jogam na nossa cara
não ilumina nada, só ofusca.
Eu e você, parece usar nariz de palhaço,
acreditando que quando o bolo crescer
receberemos nosso pedaço.
Mas o que sobra são mais migalhas
lançadas desse banquete insaciável,
de quem acha que ainda devemos bater palma
pela esmola separada dos trilhões
que arrancam de nós, os impostos.

Sob o céu: esgoto.
Sobre o chão: esgoto.
Sob a pele: um cansaço
que plano de governo nenhum drena.
O país é uma ferida aberta
que os poderosos lambem
pra ver se escorre mais ouro.
Quando não conseguem,
acham outro jeito
de arrancar mais um pouco do nosso couro.

Não tenho lado.
Neste jogo, que já nasceu errado.
Não implico com quem tem —
pois já tive.
Mas percebi que os lados não servem
quando a mesa do poder é inclinada,
sempre no mesmo sentido:
pra cima,
onde quem pisa o chão quase nunca sobe,
porque, no fim das contas,
é o sistema que se perpetua,
não as ideologias.

Isso vem de longe,
das caravelas ao cartão corporativo
e aos bilhões do fundão eleitoral:
enquanto a saúde agoniza em corredores
e a educação segue passando mal.
O nome muda,
o truque não.
Sempre tem alguém engravatado ou apaisana
jurando que veio salvar o povo
enquanto enfia a mão até o ombro
no nosso bolso.

E eu aqui,
tentando me expressar em versos,
sem fé em herói,
tentando moldar meu mundo
a qualquer custo,
desde que o custo seja só meu.
Quero clareza
antes que me transformem
em mais um objeto descartável
da engrenagem que tudo moe.

Sei da força do povo, sei.
O medo é dos que nos lideram —
esses que descem do carro blindado
rodeados de segurança e puxa-saco,
e sobem no palanque com voz de salvador
e fome de imperador romano.
De quatro em quatro anos
chegam ao poder e: gostam.
E querem ficar.
E deixam pra nós o velho espetáculo:
recomeçar a luta
com os ossos gastos.

Talvez eu escreva porque falar já cansa,
ou porque a indignação ainda precisa ser escrita,
ou porque a esperança virou um bicho arisco,
cansado de ouvir
a mesma faixa arranhada do disco.

Mas uma coisa eu sei:
de regime em regime,
de governo em governo,
o que mudou neste país?
Talvez só os slogans,
como a selfie de quem abraça pobre.
Não sou tão pessimista quanto parecem
esses meus versos —
acredito, sim, na mudança.
Mas ela virá quando o povo cansar de aplaudir
quem transforma ajuda social em bagagem de troca
e ainda nos culpa
por não saber votar.

Eu sou poeta, sim.
Mas não sou manso.
Eu escrevo.
Eu grito no papel.
Eu digo:
me deem dignidade:
saúde que respire,
educação que liberte,
segurança pública de verdade,
um país onde se ensine
que vale a pena
ser honesto,
e onde o povo não seja tratado
como resto.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
===============
✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

 

terça-feira, dezembro 02, 2025

Presença

O invisível que não se explica, mas se habita, porque sua linguagem não é de palavras, mas de presença.

✍️
Quando você aprender
que Deus não deserta —
a vida ganhará mais sentido.

Sua vida
receberá roupagem nova,
será reescrita por um poder supremo.
Deixe-se guiar,
apenas segure o leme
e confie.


Será sua própria testemunha.
E o resto torna-se só resto,
pó de estrada que ficou para trás,
um efêmero e insignificante ruído.

As pedras atiradas em sua direção,
certeiras como mísseis hipersônicos,
perdem seus GPS,
já não sabem do seu CEP,
não têm mais rota de colisão.

E as palavras ditas contra você,
que prometeram juras de maldição,
dissolvem-se no vento,
como o veneno
que a São Bento foi dado,
e se perdeu.

Acredite: há uma força invisível
que não pode ser vista,
só sentida.
Que rasga o peito e o acalma,
da qual já não se consegue fugir
e da qual não é preciso escapar.

Um segredo sussurrado
aos alto-falantes:
até os dispersos na multidão,
até aquele 1% das cem,
haverão de saber
que Ele sempre soube
sua localização.

E nós, com Ele.
Somos o alvo e a flecha
que um dia hão de se encontrar.
Como o pôr do sol que toca o mar
e todo dia deseja voltar.

E quando esse encontro acontecer,
seu mundo,
mesmo em guerra interna,
encontrará aconchego no colo de um Pai.
E os vulcões à beira da erupção
serenar-se-ão como um rio de planície
que segue sem pressa.

E a paz —
essa esperada conquista,
se faz presente
mesmo no caos do dia a dia,
no instante presente.

Porque viver é isso:
mais que pulsar,
respirar,
é ter fé,
é existir.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

===============
✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

terça-feira, outubro 21, 2025

Se voltasses...

Quando a ausência permanece — e a saudade floresce em silêncio.

✍️
Se voltasses agora,
talvez não me reconhecesses.
nem meu olhar,
nem a quietude no lugar das palavras.

o chão que pisavas
já não cede — não faz poeira.
a chuva voltou com a primavera
e eu voltei
a ver a beleza das cores.

o barulho que deixaste em mim
virou ruído, quase silêncio —
acomodou-se onde antes havia agitação.

acho que não espero mais,
mas, às vezes,
um travesseiro a mais na cama,
a xícara extra no café,
me traem.

certas ausências
não se distanciam,
não cortam o cordão umbilical —
apenas se disfarçam
de rotina.

se voltasses,
verias em mim
um jardim que floresceu
aguardando alguém para colher.
talvez à tua espera.
não sei.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 ===============

✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com


terça-feira, setembro 30, 2025

Tudo o Que Ainda Vem

O temor do quase e a coragem do agora

✍️
Tenho medo —
não do fim,
mas do quase,
do “espera um pouco”,
do “e se” que fica,
do “e se” que não passa.

Deixar a promessa escapar — distraída,
enquanto corro atrás — do urgente,
apagando fogo — com gasolina,
sem notar — a água que dança ao meu lado.



A vida é, às vezes,
guarda-chuva fechado,
num dia de quase chuvisco,
ou o carregamos em vão,
ou o esquecemos — no canto da parede.

Tenho pressa de parar,
anseio de esperar,
viver o hoje — que já está acontecendo,
abraçar o dia sem a espera.

Tenho urgência —
de um amor sem pressa,
sem pressa para ficar,
sem pressa para ir embora.

E que eu fique inteiro,
mesmo que o medo 
às vezes
me acompanhe,
como sombra,
que assombra,
mas não impede
de viver.

✍️ @opoetatardio – Pedro Trajano

 ===============

✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com




terça-feira, setembro 16, 2025

Volto Já

Um instante de pausa para reencontrar a mim mesmo

✍️
Me ausentarei um pouco —
mas regressarei mais leve,
desatando o nó do cansaço
com os dedos da paz,
em torno de mim farei um laço.

Cuidarei do que em mim
grita calado:
um pouco de vida sem manual,
um sopro de rebeldia
contra o relógio acelerado.

Catarei silêncios nas bordas do eu,
observarei maritacas tagarelas nas copas em festa,
ouvirei o bem-te-vi que canta e retorna,
vereis pássaros migrando no instante comum,
e sentirei o riso manso das árvores.

Encantarei-me com o sorriso de criança,
beberei água de torneira,
ei de molhar os cabelos na torrente da cachoeira,
cruzarei o céu apenas com um olhar,
sobrevoarei neve, sertão e mar.

Deixarei de ser, por um instante,
um número solto no sistema.
Andarei como andarilho de nuvens,
borrifarei no asfalto quente
o perfume da infância guardada.
Soletrarei com o vento sussurrando versos
de Cora, Vinicius, Cecília e Adélia,
e lembrarei dos poetas
da minha Penápolis.

Conversarei com o tempo no banco da praça —
como sempre, ele me pedirá um gole do verão
e ainda me dará alguns conselhos.
Sempre confio naquele ancião do saber,
entregando-lhe a água parada,
encontrando um sentido renovado.

Na brevidade de um fechar de olhos —
minutos que valerão por um dia —
ensaiarei respirar fundo,
encostando-me no tronco da figueira.
Na dança do ponteiro graúdo,
sentir-me-ei maior
que qualquer antônimo de miúdo.

Desviarei um tiquinho das urgências
e talvez — quem sabe — sonharei...
ao abrir meus olhos.

Voltarei, como um soldado deseja voltar —
não das guerras do mundo,
mas das batalhas invisíveis do interno.
E trarei comigo:
não armas de canhão,
mas flores nos bolsos,
uma lucidez no olhar
e vontade de me abraçar.

Então, cidadão —
ainda que seja só por agora,
não pautarei minha vida
pela sua urgência.
Um pouco de mim, só pra mim.

Fique tranquilo, não é abandono,
é cuidado próprio.
Volto já.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 ===============

✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

terça-feira, setembro 02, 2025

A Vida em 4 Operações

Somando instantes, multiplicando sentidos — porque viver é mais sobre sentir do que contar.

✍️ 
A vida tem uma matemática que nos favorece.
Um jeito diferente de usar a calculadora:
não para contar cédulas ou números,
mas para medir, sem pressa nem precisão,
o café quente em manhãs frias,
o sol que atravessa a fresta da janela,
o riso que explode da boca de alguém na rua,
o tropeço na calçada que não nos derruba.
São adições, multiplicações de momentos simples e belos
que fazem do viver uma aquarela.

Não é que não exista subtração,
nem divisão —
como a enfermidade que chega sem avisar,
a morte que leva quem amamos,
o desemprego que bate à porta,
o acidente que não pede licença,
a rispidez na resposta de alguém,
os tantos olhares sem crença.

Mas são tantas outras somas positivas,
frente aos dissabores,
que até uma criança percebe
que a vida ganha de goleada.

Se há um instante em que a morte vence,
como um conta-gotas que chega ao fim,
quantos outros dias se oferecem para somar?
E tantos saldos para multiplicar:
passos no chão da cidade, vento nas árvores,
pássaros disputando os ipês floridos,
a fila do mercado que insiste em ensinar paciência,
a criança que cresce — nossa descendência,
a professora que leciona com eloquência.

São os pequenos gestos diários,
ao longo do percurso,
que definem se vivemos mais
ou morremos mais durante a jornada.

E eu escolho ficar com o que tem mais vida,
ainda que seja em doses mínimas,
todos os dias.
No gesto de ajudar alguém sem perceber,
no nascer tímido de uma fonte límpida
na rachadura do concreto,
na descoberta de dois corações pulsando,
e se abrigando num mesmo corpo,
na chuva fina que alivia o clima seco,
no cheiro da comida subindo da cozinha,
no doce entregue escondido pela vó aos netos —
quase um ato delinquente,
no som dos sapatos batendo no asfalto,
na conversa que se perde
e se reencontra na próxima esquina,
na poesia solta nos posts,
no refrão de uma MPB esquecida no disco de vinil,
na vontade de vencer desse povo do meu Brasil.

Cada dia vivido é moeda guardada no bolso da alma.
Cada riso, cada olhar, cada respiração
é soma que cresce, lucro que ninguém toma,
um infinito resumido em soma.

E quando o ciclo se fechar,
que a gente possa olhar com carinho
no derradeiro segundo existente
e enxergar uma vida que valeu a pena:
porque vivemos mais do que morremos,
carregamos um mundo inteiro de pequenas alegrias,
e valeu a decisão de viver vivendo.
E que a vida, no fundo,
foi
menos dívida
e mais dividendo.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 ===============

✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com


terça-feira, agosto 26, 2025

Um Vencedor

Entre perdas e cicatrizes, a vitória de seguir em frente com verdade e coragem.

✍️
Não mais escondo minhas cicatrizes,
deixo que o tempo as mostre por inteiro,
porque o que me feriu, também me moldou.
Sou tronco rachado, que decidiu ficar de pé.
Sou as folhas que voam ao vento,
mas que escolhem o próprio pouso.
Não se engane:
eu sei pra onde estou indo.


Houve flores que não floriram,
pelos caminhos que me trouxeram aqui,
sonhos que o tempo levou antes da hora,
há perfume que se perdeu sem ser sentido.
Mas há ternura naquilo que ficou:
o calor de um sol amigo na pele,
lembranças de um riso cravado na memória,
marcas eternas, impressas na poeira dos passos.


Nem sempre chego inteiro.
As partes que chegam se fazem suficientes.
Não se sobe no pódio
evitando sofrimento.
Sou a soma exata das partes que vivo,
que se arquivam na minha trajetória,
e, por tudo isso, sou um vencedor.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 ===============

✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

terça-feira, agosto 05, 2025

A Xícara Trincada

O cotidiano como poesia: afeto, silêncio e beleza no simples viver.

 













Quatro e pouco. Acordo antes da cidade.
A luz da cozinha acende, o cursor do notebook pisca,
o Word em branco pede versos.
Às vezes, a pia ainda carrega lembranças do jantar de ontem:
três pratos, alguns talheres — e um silêncio que respinga.
✍️
Às dez para cinco, colho couve e ora-pro-nóbis no quintal.
Faço um suco verde e entrego um copo à minha esposa.
Ela sai pra caminhar.
Eu fico — e acordo nossa filha ao som de K-pop.
✍️
O café da manhã segue um ritual: crepioca, ovos, frutas.
A liturgia do dia toca de um aplicativo.
Enquanto comemos, falamos de contas, de planos,
da vida que caminha — e também rimos.
✍️
Levo as duas: uma para aprender, outra para ensinar.
Escolas diferentes, mas o mesmo cheiro de giz.
✍️
Volto. Molho a horta. Reviso a agenda.
Olho prazos, penso nos clientes.
Se der tempo, escrevo.
A poesia ainda não me paga — mas sustenta a alma.
Às oito, saio de casa para conquistar o meu dia.
✍️
Minha rotina não é prisão — é afeto encadeado.
Uma espécie de amor em série.
✍️
Entre um afazer e outro, penso:
a vida, às vezes, é como aquela xícara trincada no armário.
A que ninguém escolhe pra visita.
Mas é nela que o café parece estar mais quente.
✍️
Nas redes sociais, o mundo vive em festa:
quase uma orgia de dopamina.
Gente em praias, brindando ao pôr do sol.
Carros caros. Filhos prodígios. Casamentos filtrados.
✍️
Mas isso é só o que se mostra.
A maioria vive como a gente:
entre o despertador e o dia lá fora,
entre boletos e pequenos milagres.
Só que isso — quase ninguém curte.
✍️
A armadilha é tomar o recorte pela realidade inteira.
E esquecer que o extraordinário — quase sempre — se disfarça no comum.
✍️
A vida simples não se exibe.
Ela sussurra.
Talvez por isso não se poste:
porque o essencial não se posta — vive.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 15, 2025

A Bagagem


















A vida me deu uma mala grande
quando eu ainda era pequeno,
e vontade demais de viver.
✍️
Expectativa versus realidade —
despida e sem cozimento.
Tantos mundos passaram por mim,
sem que eu pisasse neles,
sem que eu visse seus horizontes.
✍️
Então guardei passagens que não usei,
bilhetes amarelados no fundo da gaveta,
destinos que só viajei de faz de conta.
✍️
No trajeto, dobrei sonhos,
coloquei no fundo da mala —
como quem espera o dia certo
que nunca chega.
✍️
A mala estava pesada.
Não pelo que levava,
mas pelo que eu não deixava
pelas certezas que eu mantinha.
✍️
Mas hoje, enfim, abri a mochila.
O sol raiou como o brilho da infância.
Vesti um sonho antigo,
me pus em estado de despertar
e segui mais leve —
com menos medo
e mais caminho,
mais dúvidas
e menos certezas.
✍️
E era isso que eu precisava.
Mais do que conhecer a estrada,
perder-me em mim
para encontrar-me antes do fim.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 01, 2025

O Próximo Segundo é Inédito














Ainda tem vento que não tocou meu rosto,
e café que vai aquecer lembranças que nem vivi.
Moram em mim viagens adormecidas em algum canto do desejo:
conhecer o Cristo de braços abertos,
visitar o frio que desenha silêncios em Campos do Jordão,
as coloridas cerejeiras de Tóquio,
o outono dourado de Nova York,
o sol batendo nas dunas de Jericoacoara,
passear pelas páginas da Bienal de São Paulo,
onde a vida, talvez, mude de assunto sem avisar.
✍️
Ainda tem música que vai dizer seu nome
num refrão distraído,
e meu abraço, calado, esperando por ti
nas noites em que só a brisa me visita.
✍️
Tem jardim que vai florir
sem pedir licença ao último inverno,
e uma risada que vai escapar
como quem divide a vida a dois, sem intervalo.
✍️
Ainda tem coisa boa por vir —
não por sorte,
mas porque costurei esperança no avesso dos dias,
mesmo quando tudo parecia desfiar.
✍️
E quando chegar,
quero estar aqui.
Com as partes que doeram,
mas também com tudo o que esperei.
✍️
Porque viver é isso:
não desistir de acreditar
no que ainda está por vir,
no inédito segundo seguinte.

✍️ @opoetatardio – Pedro Trajano


terça-feira, junho 03, 2025

Felicidade

O que é a felicidade? — me perguntaram —
demorei pra entender,
precisei de tempo pra responder.
✍️
É quando o mundo silencia por dentro,
e o tempo se dobra
pra caber no agora.
✍️
É estar onde a alma repousa,
fazendo o que precisa ser feito,
sem pressa, sem culpa, sem tristeza.
✍️
E, quando a morte chegar — sem surpresa —
me encontrará fazendo o que é certo,
em paz, no lugar que devo estar.
✍️
Sorrirei pra ela
no milésimo segundo que resta.
Não serei levado,
irei de bom grado,
rumo a um outro lugar sagrado.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano


Este poema foi inspirado por uma frase que ouvi em um podcast:

“Felicidade é estar fazendo o certo, no lugar certo, quando a morte chegar.”

 

Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)