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terça-feira, março 03, 2026

🌱 O Semeador em Silêncio

Quem planta em silêncio também colhe eternidade — generosidade é deixar raízes onde talvez nunca possamos voltar.

✍️
Plantei no meio do concreto
uma semente quase invisível.
Ninguém parou para ver.
Talvez um dia, quando o sol pesar sobre a avenida,
alguém encontre sombra ali
sem saber quem cavou a terra dura.

Não conheço esse rosto futuro.
Mas já me importo com ele.


Semeiei com as mãos vazias
e o coração cheio do que não aparece.
Servir, às vezes,
é fazer o bem no turno em que ninguém aplaude,
é cuidar do que vai florescer
quando eu já tiver ido embora.

A árvore pode crescer
em um tempo que não é mais meu.
Tudo bem.
Nem toda colheita precisa do agricultor por perto.

No ritmo apressado da cidade,
onde tudo precisa de nome e crédito,
eu escolho plantar sem assinatura.
Deixar raiz onde só havia rachadura.
Abrir sombra onde só havia pressa.

Quem espalha frescor nos dias quentes
talvez nunca saiba
quem respirou aliviado por causa disso.
Mas a vida sabe.

E às vezes, isso basta.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

terça-feira, fevereiro 03, 2026

Aconselhe a Ti Mesmo

Na vida alheia é fácil ser sábio
como se tudo coubesse num conselho.
Mas na própria reina a dúvida
um silêncio que desmonta certezas.
É simples vestir o papel de conselheiro
difícil é ser guia de si mesmo o dia inteiro.




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✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, janeiro 06, 2026

Desejo-lhe

Quando a morte chegar, que te encontre vivo — não apenas de respiração, mas de presença

✍️
Que tua algoz não te encontre sentado
na penumbra de um quarto fechado
mas no dourado vivo de uma tarde
onde o vento insiste em balançar os galhos
e o eco da tua gargalhada invada
as ruas, as praças
E que o brilho dos teus olhos lance luz
às calçadas mal iluminadas.

Que ela te surpreenda
com os dedos manchados de tinta
um livro aberto no colo
ou o cursor a piscar na tela
revelando, linha após linha, mais um verso
o olhar preso no azul profundo do céu
onde nuvens passageiras se dissolvem sem adeus
como pensamentos leves que, ao cair
desenham desejos na superfície da memória.

Que teu corpo guarde ainda
a lembrança dos passos apressados
o murmúrio de vozes nas sacadas
o cheiro da chuva recém-caída
que aviva o verde das folhas
como se cada gota fosse fênix renascendo
oferecendo vida ao instante.

Que teus planos ainda sejam tão intensos
quanto foram nos sonhos da infância.
Que a matéria do teu corpo — talvez já cansado —
ainda resguarde, em silêncio, uma mente
que esqueceu de envelhecer.

Que a algoz, a morte, ao te procurar
se confunda com tua própria intensidade
e, por um instante, duvide —
talvez seja ela quem chegou cedo demais.

Pois diante dela estará alguém
que não esperou o fim para querer viver
alguém que soube ser presença inteira
no breve intervalo entre início e fim
que chamamos vida.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajan

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⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
    
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com
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    Muitas vezes encontramos a frase “Quando a morte chegar, que te encontre com vida” circulando pela internet. Com frequência é atribuída a um “provérbio africano”, mas ao buscar sua origem não encontrei nenhuma fonte confiável que confirme isso.
(Se você conhecer, compartilhe nos comentários.)

    Ainda assim, a força dessa sentença me atravessou. A ideia de não esperar o fim para, enfim, escolher viver e ser presença inteira no breve intervalo entre início e fim, me inspirou a escrever o poema Desejo-lhe.

terça-feira, dezembro 30, 2025

Nômades que Somos

Entre o fim e o começo, um intervalo chamado travessia, ali, o novo ano ganha consciência.

✍️
O que se finda não são os dias
mas o calendário que escapa entre os dedos
O que começa não é tempo novo
mas a chance do que ainda não se fez.


Deixamos o ano que nos abrigou
como quem solta o eco de um “eu te amo” não dito
meses e estações
como velas acesas em silêncio no altar.

Esperamos a morada sem forma
uma vibração que busca o ar
entre o primeiro de janeiro e a São Silvestre
uma incerteza que nos move.

Certo é o que ficou:
a lição, o passo, a pequena vitória
ou os reversos dos versos da vida.

A areia imóvel da praia não visitada
o mapa amassado no bolso
Move-se a onda que me chama pelo nome
um horizonte engolido além dos olhos.

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Estradas, Desertos e Flores

O homem contemporâneo. Pós-promessa e pós-ilusão...

✍️
Ando
por estradas que não prometem chegada
carrego no peito
um vazio que não pede explicação
apenas pesa

Há uma saudade sem nome
dessas que não gritam
mas corroem
desfazem certezas
e constroem perguntas

Guardo lembranças do amanhã
futuros que sonhei ontem
e que não vieram
como mensagens nunca lidas
como chuva que escolheu não cair

Depois do boa-noite
fica o corpo
fica o quarto
fica o silêncio
fazendo mais barulho
do que qualquer palavra dita
do que qualquer grito

ou gemido de choro

Neste deserto que chamo de peito
de fases da vida
de cotidiano
cada segundo é atrito
é o incômodo de continuar
quando tudo pede pausa
às vezes meu próprio suspiro
pesa mais
que a gravidade de um planeta inteiro

Há dores que não aprendem a falar
feridas que se deitam
sobre cicatrizes mal curadas
como se o tempo
andasse em círculos
como se sangrar
fosse um hábito
uma solução

Ainda assim
algo em mim se recusa a desistir
a se vitimizar
não por coragem
mas por teimosia
recolho migalhas
acredito em milagres pequenos
desses que não mudam o mundo
mas salvam o dia

A estrada segue
e eu sigo junto
buscando a arquitetura
de um começo possível
nos escombros do que fui
no avesso do avesso
da minha própria realidade

Dentro de mim
uma flor insiste
em nascer onde ninguém regaria

um pássaro canta
mesmo esquecido pelo bando
não para vencer
nem ser lembrado
mas para existir

Porque esperança
não é promessa
é chama
dessas que tremem
mas não se apagam

e enquanto ela acesa estiver
o resto
a gente ajeita
pra continuar
mesmo ferido
mesmo vazio
mesmo sem garantias
mas vivo.

Nota do autor

    Escrevi este poema sem a intenção de consolar.
Ele nasce de uma época em que as grandes promessas já não convencem, em que o heroísmo soa artificial e a esperança precisa ser pequena para ser honesta. Não há aqui desejo de superação espetacular, apenas a tentativa de permanecer.
    O eu lírico não busca sentido pleno nem redenção. Ele caminha. Observa. Aguenta. O vazio não é metáfora: é peso. A saudade não é nostalgia: é corrosão. A estrada não conduz a um destino claro, porque este tempo já não oferece chegadas evidentes.    
    Este poema não quer explicar o mundo.
    Tenta apenas testemunhar o peso de existir no próprio tempo —
nem antes, nem depois, mas agora.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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terça-feira, dezembro 02, 2025

Presença

O invisível que não se explica, mas se habita, porque sua linguagem não é de palavras, mas de presença.

✍️
Quando você aprender
que Deus não deserta —
a vida ganhará mais sentido.

Sua vida
receberá roupagem nova,
será reescrita por um poder supremo.
Deixe-se guiar,
apenas segure o leme
e confie.


Será sua própria testemunha.
E o resto torna-se só resto,
pó de estrada que ficou para trás,
um efêmero e insignificante ruído.

As pedras atiradas em sua direção,
certeiras como mísseis hipersônicos,
perdem seus GPS,
já não sabem do seu CEP,
não têm mais rota de colisão.

E as palavras ditas contra você,
que prometeram juras de maldição,
dissolvem-se no vento,
como o veneno
que a São Bento foi dado,
e se perdeu.

Acredite: há uma força invisível
que não pode ser vista,
só sentida.
Que rasga o peito e o acalma,
da qual já não se consegue fugir
e da qual não é preciso escapar.

Um segredo sussurrado
aos alto-falantes:
até os dispersos na multidão,
até aquele 1% das cem,
haverão de saber
que Ele sempre soube
sua localização.

E nós, com Ele.
Somos o alvo e a flecha
que um dia hão de se encontrar.
Como o pôr do sol que toca o mar
e todo dia deseja voltar.

E quando esse encontro acontecer,
seu mundo,
mesmo em guerra interna,
encontrará aconchego no colo de um Pai.
E os vulcões à beira da erupção
serenar-se-ão como um rio de planície
que segue sem pressa.

E a paz —
essa esperada conquista,
se faz presente
mesmo no caos do dia a dia,
no instante presente.

Porque viver é isso:
mais que pulsar,
respirar,
é ter fé,
é existir.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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quinta-feira, outubro 23, 2025

Virtude Rara


A fidelidade é raiz oculta das almas inteiras — rara como a pureza que o tempo não corrói.
Ser leal é permanecer verdadeiro, mesmo quando só a consciência nos observa.









✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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terça-feira, outubro 21, 2025

Se voltasses...

Quando a ausência permanece — e a saudade floresce em silêncio.

✍️
Se voltasses agora,
talvez não me reconhecesses.
nem meu olhar,
nem a quietude no lugar das palavras.

o chão que pisavas
já não cede — não faz poeira.
a chuva voltou com a primavera
e eu voltei
a ver a beleza das cores.

o barulho que deixaste em mim
virou ruído, quase silêncio —
acomodou-se onde antes havia agitação.

acho que não espero mais,
mas, às vezes,
um travesseiro a mais na cama,
a xícara extra no café,
me traem.

certas ausências
não se distanciam,
não cortam o cordão umbilical —
apenas se disfarçam
de rotina.

se voltasses,
verias em mim
um jardim que floresceu
aguardando alguém para colher.
talvez à tua espera.
não sei.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, outubro 07, 2025

Asas que ficam

As asas da amizade que elevam nossos pensamentos

✍️
Meu caminho não é linha reta,
é rastro de passos que o vento de agosto não levou.
Gente que conheci —
cujas memórias se misturam
aos lampadários acesos nas varandas;
umas vieram como ritmo de samba
e partiram antes de eu aprender a letra;
outras ficaram no baú da história,
como cheiro de café em cozinha ancestral.

As que partiram deixaram sabores e desabores nos meus ombros;
as que ficaram, me deram asas.

Das que permaneceram, faço raiz e voo:
raízes para lembrar que a amizade é porto,
voo para encontrar outros brothers.

Aprendi que, nos olhos-nos-olhos,
há mais casa que nas margens
que num abraço cabe um bairro inteiro;
e que dois amigos, em silêncio,
podem atravessar desertos —
sem sede,
apenas com o umedecer da saliva
das conversas antigas, lembranças vivas.

E assim sigo:
com a herança dos encontros guardada no peito,
a coragem de não precisar caminhar sozinho
e as palavras pronunciadas
na língua secreta dos que trocam
prosa boa sob um céu de Penápolis
e mil outras cidades.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, setembro 30, 2025

Tudo o Que Ainda Vem

O temor do quase e a coragem do agora

✍️
Tenho medo —
não do fim,
mas do quase,
do “espera um pouco”,
do “e se” que fica,
do “e se” que não passa.

Deixar a promessa escapar — distraída,
enquanto corro atrás — do urgente,
apagando fogo — com gasolina,
sem notar — a água que dança ao meu lado.



A vida é, às vezes,
guarda-chuva fechado,
num dia de quase chuvisco,
ou o carregamos em vão,
ou o esquecemos — no canto da parede.

Tenho pressa de parar,
anseio de esperar,
viver o hoje — que já está acontecendo,
abraçar o dia sem a espera.

Tenho urgência —
de um amor sem pressa,
sem pressa para ficar,
sem pressa para ir embora.

E que eu fique inteiro,
mesmo que o medo 
às vezes
me acompanhe,
como sombra,
que assombra,
mas não impede
de viver.

✍️ @opoetatardio – Pedro Trajano

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terça-feira, setembro 16, 2025

Volto Já

Um instante de pausa para reencontrar a mim mesmo

✍️
Me ausentarei um pouco —
mas regressarei mais leve,
desatando o nó do cansaço
com os dedos da paz,
em torno de mim farei um laço.

Cuidarei do que em mim
grita calado:
um pouco de vida sem manual,
um sopro de rebeldia
contra o relógio acelerado.

Catarei silêncios nas bordas do eu,
observarei maritacas tagarelas nas copas em festa,
ouvirei o bem-te-vi que canta e retorna,
vereis pássaros migrando no instante comum,
e sentirei o riso manso das árvores.

Encantarei-me com o sorriso de criança,
beberei água de torneira,
ei de molhar os cabelos na torrente da cachoeira,
cruzarei o céu apenas com um olhar,
sobrevoarei neve, sertão e mar.

Deixarei de ser, por um instante,
um número solto no sistema.
Andarei como andarilho de nuvens,
borrifarei no asfalto quente
o perfume da infância guardada.
Soletrarei com o vento sussurrando versos
de Cora, Vinicius, Cecília e Adélia,
e lembrarei dos poetas
da minha Penápolis.

Conversarei com o tempo no banco da praça —
como sempre, ele me pedirá um gole do verão
e ainda me dará alguns conselhos.
Sempre confio naquele ancião do saber,
entregando-lhe a água parada,
encontrando um sentido renovado.

Na brevidade de um fechar de olhos —
minutos que valerão por um dia —
ensaiarei respirar fundo,
encostando-me no tronco da figueira.
Na dança do ponteiro graúdo,
sentir-me-ei maior
que qualquer antônimo de miúdo.

Desviarei um tiquinho das urgências
e talvez — quem sabe — sonharei...
ao abrir meus olhos.

Voltarei, como um soldado deseja voltar —
não das guerras do mundo,
mas das batalhas invisíveis do interno.
E trarei comigo:
não armas de canhão,
mas flores nos bolsos,
uma lucidez no olhar
e vontade de me abraçar.

Então, cidadão —
ainda que seja só por agora,
não pautarei minha vida
pela sua urgência.
Um pouco de mim, só pra mim.

Fique tranquilo, não é abandono,
é cuidado próprio.
Volto já.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, setembro 02, 2025

A Vida em 4 Operações

Somando instantes, multiplicando sentidos — porque viver é mais sobre sentir do que contar.

✍️ 
A vida tem uma matemática que nos favorece.
Um jeito diferente de usar a calculadora:
não para contar cédulas ou números,
mas para medir, sem pressa nem precisão,
o café quente em manhãs frias,
o sol que atravessa a fresta da janela,
o riso que explode da boca de alguém na rua,
o tropeço na calçada que não nos derruba.
São adições, multiplicações de momentos simples e belos
que fazem do viver uma aquarela.

Não é que não exista subtração,
nem divisão —
como a enfermidade que chega sem avisar,
a morte que leva quem amamos,
o desemprego que bate à porta,
o acidente que não pede licença,
a rispidez na resposta de alguém,
os tantos olhares sem crença.

Mas são tantas outras somas positivas,
frente aos dissabores,
que até uma criança percebe
que a vida ganha de goleada.

Se há um instante em que a morte vence,
como um conta-gotas que chega ao fim,
quantos outros dias se oferecem para somar?
E tantos saldos para multiplicar:
passos no chão da cidade, vento nas árvores,
pássaros disputando os ipês floridos,
a fila do mercado que insiste em ensinar paciência,
a criança que cresce — nossa descendência,
a professora que leciona com eloquência.

São os pequenos gestos diários,
ao longo do percurso,
que definem se vivemos mais
ou morremos mais durante a jornada.

E eu escolho ficar com o que tem mais vida,
ainda que seja em doses mínimas,
todos os dias.
No gesto de ajudar alguém sem perceber,
no nascer tímido de uma fonte límpida
na rachadura do concreto,
na descoberta de dois corações pulsando,
e se abrigando num mesmo corpo,
na chuva fina que alivia o clima seco,
no cheiro da comida subindo da cozinha,
no doce entregue escondido pela vó aos netos —
quase um ato delinquente,
no som dos sapatos batendo no asfalto,
na conversa que se perde
e se reencontra na próxima esquina,
na poesia solta nos posts,
no refrão de uma MPB esquecida no disco de vinil,
na vontade de vencer desse povo do meu Brasil.

Cada dia vivido é moeda guardada no bolso da alma.
Cada riso, cada olhar, cada respiração
é soma que cresce, lucro que ninguém toma,
um infinito resumido em soma.

E quando o ciclo se fechar,
que a gente possa olhar com carinho
no derradeiro segundo existente
e enxergar uma vida que valeu a pena:
porque vivemos mais do que morremos,
carregamos um mundo inteiro de pequenas alegrias,
e valeu a decisão de viver vivendo.
E que a vida, no fundo,
foi
menos dívida
e mais dividendo.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, agosto 26, 2025

Um Vencedor

Entre perdas e cicatrizes, a vitória de seguir em frente com verdade e coragem.

✍️
Não mais escondo minhas cicatrizes,
deixo que o tempo as mostre por inteiro,
porque o que me feriu, também me moldou.
Sou tronco rachado, que decidiu ficar de pé.
Sou as folhas que voam ao vento,
mas que escolhem o próprio pouso.
Não se engane:
eu sei pra onde estou indo.


Houve flores que não floriram,
pelos caminhos que me trouxeram aqui,
sonhos que o tempo levou antes da hora,
há perfume que se perdeu sem ser sentido.
Mas há ternura naquilo que ficou:
o calor de um sol amigo na pele,
lembranças de um riso cravado na memória,
marcas eternas, impressas na poeira dos passos.


Nem sempre chego inteiro.
As partes que chegam se fazem suficientes.
Não se sobe no pódio
evitando sofrimento.
Sou a soma exata das partes que vivo,
que se arquivam na minha trajetória,
e, por tudo isso, sou um vencedor.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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terça-feira, julho 22, 2025

Quero

 


Meus lábios entreabertos
escutam os sussurros da minha alma
no silêncio dos dias que se amontoam.
Trago tempestades tatuadas na pele,
e um silêncio que sangra em meio a sorrisos —
quero gritar.
✍️
Os olhos indicam verdades escondidas,
enquanto as palavras agonizam na garganta.
Aprendi a calar para não criar desordem —
enquanto o caos ordenado se abriga em meu peito,
quero sair de mim.
✍️
Cada gesto contido grita em segredo,
cada riso forçado esconde um naufrágio.
Falar seria quebrar a moldura do mundo,
mas viver calado é perder a essência —
quero existir.
✍️
Sigo entre o escuro do quarto
e a falta de luz da cozinha,
quero janelas abertas.
✍️
Ouço minha voz interior,
exorcitando os demônios internos,
dizendo para eu viver um dia por vez...
deixei de querer, decidi fazer.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 15, 2025

A Bagagem


















A vida me deu uma mala grande
quando eu ainda era pequeno,
e vontade demais de viver.
✍️
Expectativa versus realidade —
despida e sem cozimento.
Tantos mundos passaram por mim,
sem que eu pisasse neles,
sem que eu visse seus horizontes.
✍️
Então guardei passagens que não usei,
bilhetes amarelados no fundo da gaveta,
destinos que só viajei de faz de conta.
✍️
No trajeto, dobrei sonhos,
coloquei no fundo da mala —
como quem espera o dia certo
que nunca chega.
✍️
A mala estava pesada.
Não pelo que levava,
mas pelo que eu não deixava
pelas certezas que eu mantinha.
✍️
Mas hoje, enfim, abri a mochila.
O sol raiou como o brilho da infância.
Vesti um sonho antigo,
me pus em estado de despertar
e segui mais leve —
com menos medo
e mais caminho,
mais dúvidas
e menos certezas.
✍️
E era isso que eu precisava.
Mais do que conhecer a estrada,
perder-me em mim
para encontrar-me antes do fim.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 08, 2025

Entre as Horas, Silêncio

























Entre o som do despertador e o café no fogo,
nasce um mundo fora do Plantão News.
Um broto rompe a terra.
Um bebê ensaia seu passo inaugural.
✍️
No céu, uma nuvem se desenha —
e logo se apaga, como quem esquece de onde veio.
✍️

Corremos, apressados, com pressa de não chegar.
A vida, finita, pincela sua aquarela no romper dos dias.
✍️
Dormimos com lembranças do brilho azul nos olhos,
e acordamos cansados de nós.
✍️
O tempo não tem culpa:
é só um rio seguindo sua sina.
Somos nós que represamos o instante
e, depois, gritamos enchente.
✍️
Hoje, deixei os ponteiros de castigo.
A varanda me chamou devagar.
O sol caiu feito lágrima no horizonte —
e juro que ouvi o barulho das cores.
✍️
As estrelas, tardias como o poeta que sou,
não tiveram pressa de se acender no firmamento.
Só brilharam quando o escuro aceitou ficar.
✍️
Chegar inteiro é mais que vencer.
É saber que até o silêncio
tem verso escondido
nas entrelinhas do tempo.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano


terça-feira, julho 01, 2025

O Próximo Segundo é Inédito














Ainda tem vento que não tocou meu rosto,
e café que vai aquecer lembranças que nem vivi.
Moram em mim viagens adormecidas em algum canto do desejo:
conhecer o Cristo de braços abertos,
visitar o frio que desenha silêncios em Campos do Jordão,
as coloridas cerejeiras de Tóquio,
o outono dourado de Nova York,
o sol batendo nas dunas de Jericoacoara,
passear pelas páginas da Bienal de São Paulo,
onde a vida, talvez, mude de assunto sem avisar.
✍️
Ainda tem música que vai dizer seu nome
num refrão distraído,
e meu abraço, calado, esperando por ti
nas noites em que só a brisa me visita.
✍️
Tem jardim que vai florir
sem pedir licença ao último inverno,
e uma risada que vai escapar
como quem divide a vida a dois, sem intervalo.
✍️
Ainda tem coisa boa por vir —
não por sorte,
mas porque costurei esperança no avesso dos dias,
mesmo quando tudo parecia desfiar.
✍️
E quando chegar,
quero estar aqui.
Com as partes que doeram,
mas também com tudo o que esperei.
✍️
Porque viver é isso:
não desistir de acreditar
no que ainda está por vir,
no inédito segundo seguinte.

✍️ @opoetatardio – Pedro Trajano


quarta-feira, junho 25, 2025

Heróis de Fumaça


















Quando o mundo grita no noticiário,
eu me recolho no silêncio da história.
Lembro que a verdade, mesmo pisoteada,
sempre encontra brechas por onde florescer.
✍️
Já marcharam sobre este mundo inúmeros tiranos —
com fardas ou discursos doces, fingindo ser santos;
de um lado, de outro — ou pregando
a falsa neutralidade do centro.
✍️
Prometeram céus; entregaram ruínas.
Genocidas travestidos de justos,
vendedores de falsa esperança,
heróis de fumaça.
✍️
Mas nenhum deles ficou.
Todos, um a um, tombaram —
porque são altos no discurso,
mas ocos no legado.
O tempo não luta — ele apaga.
E apaga sem fazer alarde.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)