Não foi a cena do crime que pediu close
Foi quem segurava a câmera
Quem apertou publicar
antes mesmo da perícia chegar
Há um pacto invisível
entre o choque e o entretenimento
alguém posta
outro assiste compartilha
e esquece
Nessa dinâmica cega
o medo vira mercadoria
quando encontra vitrine
O algoz ganha personagem
o sofrimento vira dado
e se a dor for grande o bastante
vira tendência viraliza
transforma-se em trilha sonora
de uma produção true crime
Nessa história
a audiência decide
quem pode falar
Chamam de interesse
mas é consumo
Chamam de divulgação
mas é repetição
Engraçado cômico trágico
quando a violência vira roteiro
com gancho e reviravolta
o protagonista é sempre o algoz
ele ganha rosto
e se apaga o olhar
da vítima
O trailer sangra
A versão cinematográfica
romantizada
ganha adeptos
E a família dos mortos
segue vivendo
sem direito a sinopse
Talvez este seja outro crime
a espetacularização da violência
a tragédia virando produto
a narrativa rendendo temporadas
enquanto o lucro
segue intacto
Mas convém lembrar
nada disso é automático
Há sempre um gesto
mínimo
que decide ficar
avançar
ou sair
O clique
essa pequena ética
ainda é do indivíduo.
Nota do autor
Neste poema, não trato dos crimes em si , não tenho competência nem pretensão para isso. Interesso-me, antes, pela forma como escolhemos observá-los, narrá-los e consumi-los. Não me detenho na figura do "monstro"; esse trabalho pertence a profissionais preparados para investigar, analisar e julgar. O foco aqui é o enquadramento que transforma violência em personagem, a linguagem que converte sofrimento em produto e dor em entretenimento.
Estes versos não julga plataformas nem absolve o público. Propõe apenas uma pausa para observar um gesto cotidiano, repetido e quase automático, que costumamos chamar de interesse, curiosidade, informação ou até pena.
✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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