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quinta-feira, dezembro 18, 2025

"True Crime"

Não foi a cena do crime que pediu close
Foi quem segurava a câmera

Quem apertou publicar
antes mesmo da perícia chegar

Há um pacto invisível
entre o choque e o entretenimento
alguém posta
outro assiste compartilha
e esquece

Nessa dinâmica cega
o medo vira mercadoria
quando encontra vitrine

O algoz ganha personagem
o sofrimento vira dado
e se a dor for grande o bastante
vira tendência viraliza
transforma-se em trilha sonora
de uma produção true crime

Nessa história
a audiência decide
quem pode falar

Chamam de interesse
mas é consumo
Chamam de divulgação
mas é repetição

Engraçado cômico trágico
quando a violência vira roteiro
com gancho e reviravolta
o protagonista é sempre o algoz
ele ganha rosto
e se apaga o olhar
da vítima

O trailer sangra
A versão cinematográfica
romantizada
ganha adeptos

E a família dos mortos
segue vivendo
sem direito a sinopse

Talvez este seja outro crime
a espetacularização da violência
a tragédia virando produto
a narrativa rendendo temporadas
enquanto o lucro
segue intacto

Mas convém lembrar
nada disso é automático

Há sempre um gesto
mínimo
que decide ficar
avançar
ou sair

O clique
essa pequena ética
ainda é do indivíduo.

Nota do autor
    Neste poema, não trato dos crimes em si , não tenho competência nem pretensão para isso. Interesso-me, antes, pela forma como escolhemos observá-los, narrá-los e consumi-los. Não me detenho na figura do "monstro"; esse trabalho pertence a profissionais preparados para investigar, analisar e julgar. O foco aqui é o enquadramento que transforma violência em personagem, a linguagem que converte sofrimento em produto e dor em entretenimento.
    Estes versos não julga plataformas nem absolve o público. Propõe apenas uma pausa para observar um gesto cotidiano, repetido e quase automático, que costumamos chamar de interesse, curiosidade, informação ou até pena. 

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Estradas, Desertos e Flores

O homem contemporâneo. Pós-promessa e pós-ilusão...

✍️
Ando
por estradas que não prometem chegada
carrego no peito
um vazio que não pede explicação
apenas pesa

Há uma saudade sem nome
dessas que não gritam
mas corroem
desfazem certezas
e constroem perguntas

Guardo lembranças do amanhã
futuros que sonhei ontem
e que não vieram
como mensagens nunca lidas
como chuva que escolheu não cair

Depois do boa-noite
fica o corpo
fica o quarto
fica o silêncio
fazendo mais barulho
do que qualquer palavra dita
do que qualquer grito

ou gemido de choro

Neste deserto que chamo de peito
de fases da vida
de cotidiano
cada segundo é atrito
é o incômodo de continuar
quando tudo pede pausa
às vezes meu próprio suspiro
pesa mais
que a gravidade de um planeta inteiro

Há dores que não aprendem a falar
feridas que se deitam
sobre cicatrizes mal curadas
como se o tempo
andasse em círculos
como se sangrar
fosse um hábito
uma solução

Ainda assim
algo em mim se recusa a desistir
a se vitimizar
não por coragem
mas por teimosia
recolho migalhas
acredito em milagres pequenos
desses que não mudam o mundo
mas salvam o dia

A estrada segue
e eu sigo junto
buscando a arquitetura
de um começo possível
nos escombros do que fui
no avesso do avesso
da minha própria realidade

Dentro de mim
uma flor insiste
em nascer onde ninguém regaria

um pássaro canta
mesmo esquecido pelo bando
não para vencer
nem ser lembrado
mas para existir

Porque esperança
não é promessa
é chama
dessas que tremem
mas não se apagam

e enquanto ela acesa estiver
o resto
a gente ajeita
pra continuar
mesmo ferido
mesmo vazio
mesmo sem garantias
mas vivo.

Nota do autor

    Escrevi este poema sem a intenção de consolar.
Ele nasce de uma época em que as grandes promessas já não convencem, em que o heroísmo soa artificial e a esperança precisa ser pequena para ser honesta. Não há aqui desejo de superação espetacular, apenas a tentativa de permanecer.
    O eu lírico não busca sentido pleno nem redenção. Ele caminha. Observa. Aguenta. O vazio não é metáfora: é peso. A saudade não é nostalgia: é corrosão. A estrada não conduz a um destino claro, porque este tempo já não oferece chegadas evidentes.    
    Este poema não quer explicar o mundo.
    Tenta apenas testemunhar o peso de existir no próprio tempo —
nem antes, nem depois, mas agora.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
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Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)