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terça-feira, agosto 19, 2025

Adeus Forçado

 Gritos inconvenientes que fingem não ouvir

✍️
a rua explode em alvoroço —
desviando o olhar

o ônibus segue
o cachorro late
o bêbado tropeça
a criança suja pede
o motorista fecha o vidro
o sinal abre

a vida insiste em ser barulho —
mas na casa daquela esquina
só há silêncio

no lugar dos sonhos
um abismo se abriu
o prato dela, sozinho na mesa —
esperando talheres que não virão
a refeição perdeu calor e sabor

luz sem brilho
toca o chão como se fosse normal
como se ninguém tivesse visto o mal

frágeis fitas zebradas
não impedem ninguém de entrar
mas ninguém quer mais entrar

notícia fria de jornal de ontem:
ela não está lá
o vento levou o grito — dela
antes do socorro chegar

no espelho
ainda há um reflexo daquela mulher
em conversa de argumento
com a sombra dele —
que mede cada passo
como se tivesse pose

o corpo feminino,
ontem — hoje —
tantas forças querem ser seus donos

alguma coisa se perdeu
entre o almoço e o término
entre o choro e o desespero
depois do "não me mate"
antes do último suspiro forçado

na sala
um vaso com flores lilases
testemunhas mudas
murcha devagar —
como se soubesse

que o amor não mata
mas agora também sabe

que há aqueles que dizem amar
e seguram a faca
com a mesma naturalidade
que entregam flores —
brancas, rosas e lilás…

ainda assim é essencial saber
que existe memória e resistência
que insistem em não ceder

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, agosto 12, 2025

Pequenos Adultos

Rostos pequenos, mundos grandes demais

✍️
Ela calça saltos
antes de saber amarrar os cadarços.
Na prateleira baixa, dormem batons
onde antes moravam bonecas.
✍️
Posam para fotos
antes de aprender a perder na amarelinha.
Sorriem para a câmera
como quem engole o choro.
✍️
O palco cabe na palma da mão,
a luz fria da tela ilumina
olhos que ainda deveriam
aprender a ler o mundo devagar.

✍️
Ainda há pequenos braços
tentando abraçar o vento,
dedos de crianças querendo tocar as estrelas,
mas a pressa da adultização
acelera os passos,
como um relógio cruel que dá saltos.
✍️
As hashtags cuidam do berço,
os likes embalam o sono,
e os pais se orgulham —
confundem aplausos com afeto.
✍️
A indústria —
essa babá milionária — conta moedas
enquanto ensina a somar seguidores
antes mesmo de saberem contar até cem.
✍️
Brinquedos dormem no armário.
O balanço no quintal range, parado.
✍️
Longe do clamor,
sobram pedaços de infância
vendidos em pacotes patrocinados.
✍️
O preço de crescer cedo demais
não cabe na fatura.
✍️
O mundo aplaude,
o contrato é assinado,
e a infância —
essa figurante sem cachê —
sai de cena em silêncio.

@opoetatardio — Pedro Trajano

segunda-feira, agosto 11, 2025

Clara, Luz em Terra Irmã

Da luz de Assis ao coração de Penápolis

✍️
Como quem semeia sem querer ser vista,
plantou fé, renúncia e silenciosa caridade.
Raízes fundas que o tempo não consumiu,
floresceu Clarissa no jardim do Altíssimo.
✍️
Em Assis, no fim do século XII,
um coração se acendeu:
Clara — nobre de berço,
mas ainda mais rica por se doar.
Deixou as sedas do mundo,
seguiu a voz de Francisco,
e descobriu em Jesus
a verdadeira luz.



✍️
Não desejou palmas nem louros,
mas a sombra da Cruz e o pão da oração.
Encontrou refúgio santo na Eucaristia,
onde o mundo calava e o Amor falava.
Sua vida, um cântico escondido,
que ainda ressoa nestes tempos e templos,
em cada gesto de entrega,
em cada suspiro de fé.
✍️
Penápolis, irmã distante,
acolheu sua claridade.
Também se fez aqui chão sagrado:
ergueu-se uma casa de paz.
A Paróquia Santa Clara de Assis se faz:
um farol humilde,
uma tenda de esperança,
uma igreja irmã — para tantos irmãos.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, agosto 05, 2025

A Xícara Trincada

O cotidiano como poesia: afeto, silêncio e beleza no simples viver.

 













Quatro e pouco. Acordo antes da cidade.
A luz da cozinha acende, o cursor do notebook pisca,
o Word em branco pede versos.
Às vezes, a pia ainda carrega lembranças do jantar de ontem:
três pratos, alguns talheres — e um silêncio que respinga.
✍️
Às dez para cinco, colho couve e ora-pro-nóbis no quintal.
Faço um suco verde e entrego um copo à minha esposa.
Ela sai pra caminhar.
Eu fico — e acordo nossa filha ao som de K-pop.
✍️
O café da manhã segue um ritual: crepioca, ovos, frutas.
A liturgia do dia toca de um aplicativo.
Enquanto comemos, falamos de contas, de planos,
da vida que caminha — e também rimos.
✍️
Levo as duas: uma para aprender, outra para ensinar.
Escolas diferentes, mas o mesmo cheiro de giz.
✍️
Volto. Molho a horta. Reviso a agenda.
Olho prazos, penso nos clientes.
Se der tempo, escrevo.
A poesia ainda não me paga — mas sustenta a alma.
Às oito, saio de casa para conquistar o meu dia.
✍️
Minha rotina não é prisão — é afeto encadeado.
Uma espécie de amor em série.
✍️
Entre um afazer e outro, penso:
a vida, às vezes, é como aquela xícara trincada no armário.
A que ninguém escolhe pra visita.
Mas é nela que o café parece estar mais quente.
✍️
Nas redes sociais, o mundo vive em festa:
quase uma orgia de dopamina.
Gente em praias, brindando ao pôr do sol.
Carros caros. Filhos prodígios. Casamentos filtrados.
✍️
Mas isso é só o que se mostra.
A maioria vive como a gente:
entre o despertador e o dia lá fora,
entre boletos e pequenos milagres.
Só que isso — quase ninguém curte.
✍️
A armadilha é tomar o recorte pela realidade inteira.
E esquecer que o extraordinário — quase sempre — se disfarça no comum.
✍️
A vida simples não se exibe.
Ela sussurra.
Talvez por isso não se poste:
porque o essencial não se posta — vive.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, julho 29, 2025

O Caminho e o Vento

Às vezes sou vento
que esqueceu o rumo de casa,
vagando perdido no céu do meu sertão.
Carrego a pressa —
diluída num tempo sem pressa de chegar.
✍️
Sou brisa indecisa na espinha da serra,
sem forças pra cruzar o monte,
apenas buscando caminhos
que me levem de volta ao teu coração —
essa chama que arde em silêncio,
e ainda me chama,
esperando que eu reencontre
o caminho de volta
antes que o sol adormeça
e a lua desperte São Jorge.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano


Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)