Gritos inconvenientes que fingem não ouvir
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a rua explode em alvoroço —
desviando o olhar
o ônibus segue
o cachorro late
o bêbado tropeça
a criança suja pede
o motorista fecha o vidro
o sinal abre
a vida insiste em ser barulho —
mas na casa daquela esquina
só há silêncio
no lugar dos sonhos
um abismo se abriu
o prato dela, sozinho na mesa —
esperando talheres que não virão
a refeição perdeu calor e sabor
luz sem brilho
toca o chão como se fosse normal
como se ninguém tivesse visto o mal
frágeis fitas zebradas
não impedem ninguém de entrar
mas ninguém quer mais entrar
notícia fria de jornal de ontem:
ela não está lá
o vento levou o grito — dela
antes do socorro chegar
no espelho
ainda há um reflexo daquela mulher
em conversa de argumento
com a sombra dele —
que mede cada passo
como se tivesse pose
o corpo feminino,
ontem — hoje —
tantas forças querem ser seus donos
alguma coisa se perdeu
entre o almoço e o término
entre o choro e o desespero
depois do "não me mate"
antes do último suspiro forçado
na sala
um vaso com flores lilases
testemunhas mudas
murcha devagar —
como se soubesse
que o amor não mata
mas agora também sabe
que há aqueles que dizem amar
e seguram a faca
com a mesma naturalidade
que entregam flores —
brancas, rosas e lilás…
ainda assim é essencial saber
que existe memória e resistência
que insistem em não ceder
✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano







