Os últimos raios de sol sucumbiam lentamente às densas nuvens carregadas que se acumulavam no horizonte. O céu, antes vibrante e azul, transformava-se em um mosaico de tons acinzentados, enquanto o calor abafado anunciava a chegada iminente de uma tempestade. Na frente da casa, um grande ipê estendia sua copa robusta, e seus galhos, inquietos sob as rajadas de vento, balançavam as folhas escuras, espalhando um cheiro de terra seca prestes a ser molhada. No quintal, o pé de mamão, carregado de frutos ainda verdes, fazia companhia a alguns pés de couve. Borboletas, após depositarem seus ovos nas folhas verde-escuras, alçavam voo em busca de abrigo, enquanto pássaros apressavam-se para se proteger da chuva que se avizinhava.
— Elas não resistirão la fora se começar a chover! — exclamou Cláudia, levantando-se bruscamente do sofá e desligando a TV. Seu cabelo desalinhado e os óculos ligeiramente tortos denunciavam que ela estava completamente absorvida na trama de 'Quando o Telefone Toca', uma série coreana que acompanhava fielmente nos últimos dias de suas férias escolares.
Um trovão ressoou no céu, profundo e vibrante. A luz piscou uma vez, depois outra, enquanto o timer do fogão emitiu um som agudo antes de se apagar abruptamente com a queda de energia. Cláudia ajustou os óculos.
Emanuelly, sentada à mesa com cadernos espalhados, deu um salto na cadeira. A matemática, sua eterna adversária, vinha sendo revisada com determinação na esperança de tornar o novo ano letivo menos sofrido. Contudo, o trovão súbito, seguido por uma rajada de vento que invadiu a sala, lançou suas folhas de estudo ao chão, criando uma confusão de rabiscos e números. Ela esbravejou, olhando para os papéis espalhados, enquanto murmurava:
— Matemática já é um desastre por si só, agora isso, mãe!
Mas Cláudia, apressada em direção ao quintal, ignorou completamente o drama da filha. Emanuelly, respirando fundo para conter a indignação, acabou seguindo-a.
O pai chegou estacionando a velha Suzuki vermelha na garagem. O ronco do escapamento estourado fazia-se ouvir a metros de distância. Ele desceu da moto equilibrando sacolas de supermercado nos braços. Apesar de aparentar tranquilidade, ao entrar na casa e ver a agitação da esposa e da filha, sentiu-se compelido a agir também. Sem entender direito o que acontecia, apenas seguiu o fluxo: ao perceber a urgência das duas, deixou as sacolas na pia com um movimento ágil. O leve suor em sua testa e a camisa desalinhada do trabalho denunciavam um dia longo. Com um suspiro resignado, seguiu as duas, que já corriam para o quintal.
A chuva chegou. Gotas grossas batiam no concreto do corredor, estourando em pequenos salpicos, como se a natureza dançasse uma melodia frenética. Pedro apertou o passo, sua botina ecoando no chão que se umedecia rapidamente. Viu Emanuelly virar o canto da casa, seguindo a mãe, com os cabelos longos e negros balançando desordenadamente ao ritmo do vento crescente. Suspeitava da correria, mas só compreendeu o motivo quando alcançou ao fundo da casa.
Os três voltaram apressados, ofegantes, com os braços carregados de roupas do varal. Dentro de casa, após salvarem as vestes da família, Pedro apoiou as costas contra a parede da cozinha, rindo baixinho, enquanto Cláudia enxugava as lentes dos óculos, agora respingadas pela chuva.
— Bem, pelo menos não teremos que lavá-las novamente! — comentou Cláudia, recolocando os óculos no rosto, como quem acaba de vencer uma batalha.
Emanuelly deixou-se cair no sofá com um exagerado suspiro de cansaço, usando as roupas recolhidas como almofada improvisada. Em uma das mãos, segurava as folhas de estudo que havia acabado de recolher do chão, levemente amassadas.
— Tudo isso por causa de uma chuva repentina. Acho que prefiro a matemática! — esbravejou ela, arrancando uma risada do pai, que observava a cena.
Ainda apoiado na parede, Pedro cruzou os braços, pensando que, apesar do caos, havia algo de aconchegante naquilo tudo: uma família em meio ao tumulto ordinário da vida.
Todos ergueram os olhos para o teto quando as lâmpadas da casa voltaram a acender com o restabelecimento da energia, enquanto a chuva lá fora se tornava cada vez mais intensa.
Pedro Trajano
30 janeiro 2025
Penápolis SP

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