Há de chegar um tempo
na vida de toda pessoa,
mais que um desejo, é quase oração —
o dia em que ela, diante do mundo,
como quem permite ao beija-flor
tocar o néctar da flor,
não olhará para tomar,
não tocará para medir,
não nomeará para dominar,
nem pensará em aprisionar.
Ficará ali.
Pacientemente diante do que é,
como uma casa aberta ao entardecer,
com as mãos desarmadas do querer
e a alma mais pura que a de uma criança,
sabendo
que o real se revela
apenas a quem não o força.
Quando — e se — chegar esse momento,
essa pessoa descobrirá
que a atenção
é este silêncio ativo
que se oferece apenas
a quem está presente,
onde nada se pede
e tudo, enfim, pode acontecer.
E compreenderá que a beleza
recusa-se a ser observada
por corações que a olham
com desejo de posse
e pressa para tudo acabar.
Nota do autor
Este poema nasceu da reflexão do autor sobre uma crise de ciúmes — não como confissão, mas como escuta de um sentimento que, quando não atravessado, faz sofrer a todos os envolvidos.
✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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