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sábado, janeiro 24, 2026

Minha Canção Preferida

Às vezes, não sei como dimensionar
o quanto você cresceu.
Fico pensando se não é o tempo
que passa rápido demais
e te pega pelas mãos
te puxa para novos anos
sem ao menos olhar para trás.

Então eu fico perto.
Não por saber, mas por não saber.
Quero aprender seu jeito novo de existir
como quem escuta uma música sem refrão
tentando ler as cifras dos seus acordes de violão.
Cada nota é um silêncio entre as palavras.
Teu sorriso ainda é o da minha criança
quando acerta o tom
e no seu olhar se navega
para onde nascem as canções.
E mesmo que eu não entenda a melodia
estarei na plateia a aplaudir.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

O Chão dos Dias

O ano novo chegou para valer.
desmontaram as árvores
recolheram os presépios
as visitas se foram
desarrumaram-se as malas

o cardápio voltou ao necessário
o fim das férias nos olha de perto

Volta-se ao dia comum.
a rotina sem romantização
chega e nos abraça
se aceitarmos.
ela fica.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Pequeno atraso

No meio da conversa
peguei a xícara de café
levei vazia à boca
ri antes que minha esposa notasse o motivo,
mas como explicar que às vezes o erro é só o corpo
atrasado em mim mesmo.

Nota do poeta:
Este poema nasceu de um pequeno desencontro entre meu corpo e o dia que já havia começado.



✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.
📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

terça-feira, janeiro 06, 2026

Desejo-lhe

Quando a morte chegar, que te encontre vivo — não apenas de respiração, mas de presença

✍️
Que tua algoz não te encontre sentado
na penumbra de um quarto fechado
mas no dourado vivo de uma tarde
onde o vento insiste em balançar os galhos
e o eco da tua gargalhada invada
as ruas, as praças
E que o brilho dos teus olhos lance luz
às calçadas mal iluminadas.

terça-feira, dezembro 30, 2025

Nômades que Somos

Entre o fim e o começo, um intervalo chamado travessia, ali, o novo ano ganha consciência.

✍️
O que se finda não são os dias
mas o calendário que escapa entre os dedos
O que começa não é tempo novo
mas a chance do que ainda não se fez.


Deixamos o ano que nos abrigou
como quem solta o eco de um “eu te amo” não dito
meses e estações
como velas acesas em silêncio no altar.

domingo, dezembro 21, 2025

1/2 século: um tempo escultor

Das raízes da memória ao agora que se forma.

✍️
Não conto mais os anos, mas as luas que me viram
o começo do meu florescer em meio ao sol e às geadas
entre cafezais e canaviais
Chego aqui com as estradas que me abriram
e a poeira do século passado em meus sinais
Já bati facão no tronco de cana queimada
e deixei suor das mãos em cabo de enxada
Mas o tempo passou pincelando muitas telas
e a alma, enfim, foi se aquietando, a serenando
enquanto a dor no joelho chegou, discreta.

quinta-feira, dezembro 18, 2025

"True Crime"

Não foi a cena do crime que pediu close
Foi quem segurava a câmera

Quem apertou publicar
antes mesmo da perícia chegar

Há um pacto invisível
entre o choque e o entretenimento
alguém posta
outro assiste compartilha
e esquece

Nessa dinâmica cega
o medo vira mercadoria
quando encontra vitrine

O algoz ganha personagem
o sofrimento vira dado
e se a dor for grande o bastante
vira tendência viraliza
transforma-se em trilha sonora
de uma produção true crime

Nessa história
a audiência decide
quem pode falar

Chamam de interesse
mas é consumo
Chamam de divulgação
mas é repetição

Engraçado cômico trágico
quando a violência vira roteiro
com gancho e reviravolta
o protagonista é sempre o algoz
ele ganha rosto
e se apaga o olhar
da vítima

O trailer sangra
A versão cinematográfica
romantizada
ganha adeptos

E a família dos mortos
segue vivendo
sem direito a sinopse

Talvez este seja outro crime
a espetacularização da violência
a tragédia virando produto
a narrativa rendendo temporadas
enquanto o lucro
segue intacto

Mas convém lembrar
nada disso é automático

Há sempre um gesto
mínimo
que decide ficar
avançar
ou sair

O clique
essa pequena ética
ainda é do indivíduo.

Nota do autor
    Neste poema, não trato dos crimes em si , não tenho competência nem pretensão para isso. Interesso-me, antes, pela forma como escolhemos observá-los, narrá-los e consumi-los. Não me detenho na figura do "monstro"; esse trabalho pertence a profissionais preparados para investigar, analisar e julgar. O foco aqui é o enquadramento que transforma violência em personagem, a linguagem que converte sofrimento em produto e dor em entretenimento.
    Estes versos não julga plataformas nem absolve o público. Propõe apenas uma pausa para observar um gesto cotidiano, repetido e quase automático, que costumamos chamar de interesse, curiosidade, informação ou até pena. 

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
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📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Estradas, Desertos e Flores

O homem contemporâneo. Pós-promessa e pós-ilusão...

✍️
Ando
por estradas que não prometem chegada
carrego no peito
um vazio que não pede explicação
apenas pesa

Há uma saudade sem nome
dessas que não gritam
mas corroem
desfazem certezas
e constroem perguntas

Guardo lembranças do amanhã
futuros que sonhei ontem
e que não vieram
como mensagens nunca lidas
como chuva que escolheu não cair

Depois do boa-noite
fica o corpo
fica o quarto
fica o silêncio
fazendo mais barulho
do que qualquer palavra dita
do que qualquer grito

ou gemido de choro

Neste deserto que chamo de peito
de fases da vida
de cotidiano
cada segundo é atrito
é o incômodo de continuar
quando tudo pede pausa
às vezes meu próprio suspiro
pesa mais
que a gravidade de um planeta inteiro

Há dores que não aprendem a falar
feridas que se deitam
sobre cicatrizes mal curadas
como se o tempo
andasse em círculos
como se sangrar
fosse um hábito
uma solução

Ainda assim
algo em mim se recusa a desistir
a se vitimizar
não por coragem
mas por teimosia
recolho migalhas
acredito em milagres pequenos
desses que não mudam o mundo
mas salvam o dia

A estrada segue
e eu sigo junto
buscando a arquitetura
de um começo possível
nos escombros do que fui
no avesso do avesso
da minha própria realidade

Dentro de mim
uma flor insiste
em nascer onde ninguém regaria

um pássaro canta
mesmo esquecido pelo bando
não para vencer
nem ser lembrado
mas para existir

Porque esperança
não é promessa
é chama
dessas que tremem
mas não se apagam

e enquanto ela acesa estiver
o resto
a gente ajeita
pra continuar
mesmo ferido
mesmo vazio
mesmo sem garantias
mas vivo.

Nota do autor

    Escrevi este poema sem a intenção de consolar.
Ele nasce de uma época em que as grandes promessas já não convencem, em que o heroísmo soa artificial e a esperança precisa ser pequena para ser honesta. Não há aqui desejo de superação espetacular, apenas a tentativa de permanecer.
    O eu lírico não busca sentido pleno nem redenção. Ele caminha. Observa. Aguenta. O vazio não é metáfora: é peso. A saudade não é nostalgia: é corrosão. A estrada não conduz a um destino claro, porque este tempo já não oferece chegadas evidentes.    
    Este poema não quer explicar o mundo.
    Tenta apenas testemunhar o peso de existir no próprio tempo —
nem antes, nem depois, mas agora.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)