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terça-feira, fevereiro 03, 2026

Aconselhe a Ti Mesmo

Na vida alheia é fácil ser sábio
como se tudo coubesse num conselho.
Mas na própria reina a dúvida
um silêncio que desmonta certezas.
É simples vestir o papel de conselheiro
difícil é ser guia de si mesmo o dia inteiro.




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✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

 

sábado, janeiro 24, 2026

Minha Canção Preferida

Às vezes, não sei como dimensionar
o quanto você cresceu.
Fico pensando se não é o tempo
que passa rápido demais
e te pega pelas mãos
te puxa para novos anos
sem ao menos olhar para trás.

Então eu fico perto.
Não por saber, mas por não saber.
Quero aprender seu jeito novo de existir
como quem escuta uma música sem refrão
tentando ler as cifras dos seus acordes de violão.
Cada nota é um silêncio entre as palavras.
Teu sorriso ainda é o da minha criança
quando acerta o tom
e no seu olhar se navega
para onde nascem as canções.
E mesmo que eu não entenda a melodia
estarei na plateia a aplaudir.

Há dias em que meus conselhos
são tão repetitivos, eu sei.
Queria mesmo era só caminhar ao teu lado
mas sou pai, então espero que me entenda.
Se não hoje
quem sabe um desses dias que moram no amanhã.

E se um dia você não souber a letra
lembre:
eu estarei aqui.
Não por saber cantar
mas porque é bom
te ouvir.

Para minha filha, nos seus 14 anos — 24 de janeiro de 2026.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano (Pai e Poeta)
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📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com

segunda-feira, janeiro 12, 2026

O Chão dos Dias

O ano novo chegou para valer.
desmontaram as árvores
recolheram os presépios
as visitas se foram
desarrumaram-se as malas

o cardápio voltou ao necessário
o fim das férias nos olha de perto

Volta-se ao dia comum.
a rotina sem romantização
chega e nos abraça
se aceitarmos.
ela fica.


e isso
simplesmente
é a vida
sendo vivida.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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sexta-feira, janeiro 09, 2026

Pequeno atraso

No meio da conversa
peguei a xícara de café
levei vazia à boca
ri antes que minha esposa notasse o motivo,
mas como explicar que às vezes o erro é só o corpo
atrasado em mim mesmo.

Nota do poeta:
Este poema nasceu de um pequeno desencontro entre meu corpo e o dia que já havia começado.



✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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terça-feira, janeiro 06, 2026

Desejo-lhe

Quando a morte chegar, que te encontre vivo — não apenas de respiração, mas de presença

✍️
Que tua algoz não te encontre sentado
na penumbra de um quarto fechado
mas no dourado vivo de uma tarde
onde o vento insiste em balançar os galhos
e o eco da tua gargalhada invada
as ruas, as praças
E que o brilho dos teus olhos lance luz
às calçadas mal iluminadas.

Que ela te surpreenda
com os dedos manchados de tinta
um livro aberto no colo
ou o cursor a piscar na tela
revelando, linha após linha, mais um verso
o olhar preso no azul profundo do céu
onde nuvens passageiras se dissolvem sem adeus
como pensamentos leves que, ao cair
desenham desejos na superfície da memória.

Que teu corpo guarde ainda
a lembrança dos passos apressados
o murmúrio de vozes nas sacadas
o cheiro da chuva recém-caída
que aviva o verde das folhas
como se cada gota fosse fênix renascendo
oferecendo vida ao instante.

Que teus planos ainda sejam tão intensos
quanto foram nos sonhos da infância.
Que a matéria do teu corpo — talvez já cansado —
ainda resguarde, em silêncio, uma mente
que esqueceu de envelhecer.

Que a algoz, a morte, ao te procurar
se confunda com tua própria intensidade
e, por um instante, duvide —
talvez seja ela quem chegou cedo demais.

Pois diante dela estará alguém
que não esperou o fim para querer viver
alguém que soube ser presença inteira
no breve intervalo entre início e fim
que chamamos vida.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajan

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📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com
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    Muitas vezes encontramos a frase “Quando a morte chegar, que te encontre com vida” circulando pela internet. Com frequência é atribuída a um “provérbio africano”, mas ao buscar sua origem não encontrei nenhuma fonte confiável que confirme isso.
(Se você conhecer, compartilhe nos comentários.)

    Ainda assim, a força dessa sentença me atravessou. A ideia de não esperar o fim para, enfim, escolher viver e ser presença inteira no breve intervalo entre início e fim, me inspirou a escrever o poema Desejo-lhe.

terça-feira, dezembro 30, 2025

Nômades que Somos

Entre o fim e o começo, um intervalo chamado travessia, ali, o novo ano ganha consciência.

✍️
O que se finda não são os dias
mas o calendário que escapa entre os dedos
O que começa não é tempo novo
mas a chance do que ainda não se fez.


Deixamos o ano que nos abrigou
como quem solta o eco de um “eu te amo” não dito
meses e estações
como velas acesas em silêncio no altar.

Esperamos a morada sem forma
uma vibração que busca o ar
entre o primeiro de janeiro e a São Silvestre
uma incerteza que nos move.

Certo é o que ficou:
a lição, o passo, a pequena vitória
ou os reversos dos versos da vida.

A areia imóvel da praia não visitada
o mapa amassado no bolso
Move-se a onda que me chama pelo nome
um horizonte engolido além dos olhos.

domingo, dezembro 21, 2025

1/2 século: um tempo escultor

Das raízes da memória ao agora que se forma.

✍️
Não conto mais os anos, mas as luas que me viram
o começo do meu florescer em meio ao sol e às geadas
entre cafezais e canaviais
Chego aqui com as estradas que me abriram
e a poeira do século passado em meus sinais
Já bati facão no tronco de cana queimada
e deixei suor das mãos em cabo de enxada
Mas o tempo passou pincelando muitas telas
e a alma, enfim, foi se aquietando, a serenando
enquanto a dor no joelho chegou, discreta.

O tempo, este escultor de traços pacientes
talhou em mim os mapas onde morri e vivi
e o espelho me devolve um corpo mais ciente
com fios brancos surgindo, silenciosos e persistentes
Honro a semente de onde a minha história nasceu
meus pais, meus irmãos, meu primeiro alicerce
Guardo os amigos, raros e valiosos tesouros
e as três estrelas, minha constelação
Cláudia, Emanuelly e a poesia que me invade
um trio que dá sentido ao tempo que me pertence.

O homem que sou já não tem a pressa de ontem
e prefere o silêncio que mora entre as palavras
Demorei para encontrar, mas ela veio em boa hora
a força que em minhas raízes se lavra
Minhas rimas buscam hoje o peso da terra
a leveza das nuvens, a calma de um céu azul
e o verso brota sem que a mente o desenterra
como flores que escolhem o inverno do sul.

A estatística sugere que eu já deva ter
mais história que futuro em minha jornada
mas a realidade teima em me dizer o contrário
Liberto das cobranças, dos números seguros
sigo o meu tempo, meu próprio itinerário
Pois, no fim, o que vale é o agora em serena mutação
ancorado na vida, pronto para a dança
que o destino trouxer de presente em cada estação.

Então, celebro meus cinquenta tons
não com velas — porque elas queimam e desaparecem —
mas com plumas: essas sabem voar comigo
Proclamo à vida e bato palmas para mim!
Agradeço a Deus pelo maior dos dons
e por ter chegado, finalmente, a este jardim
Feliz aniversário, poeta, por ser quem fui, sou e serei
e por estar celebrando a dança que a vida me propôs
ainda que eu erre alguns passos, volto à pista
porque a vida começa — a todo instante.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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quinta-feira, dezembro 18, 2025

"True Crime"

Não foi a cena do crime que pediu close
Foi quem segurava a câmera

Quem apertou publicar
antes mesmo da perícia chegar

Há um pacto invisível
entre o choque e o entretenimento
alguém posta
outro assiste compartilha
e esquece

Nessa dinâmica cega
o medo vira mercadoria
quando encontra vitrine

O algoz ganha personagem
o sofrimento vira dado
e se a dor for grande o bastante
vira tendência viraliza
transforma-se em trilha sonora
de uma produção true crime

Nessa história
a audiência decide
quem pode falar

Chamam de interesse
mas é consumo
Chamam de divulgação
mas é repetição

Engraçado cômico trágico
quando a violência vira roteiro
com gancho e reviravolta
o protagonista é sempre o algoz
ele ganha rosto
e se apaga o olhar
da vítima

O trailer sangra
A versão cinematográfica
romantizada
ganha adeptos

E a família dos mortos
segue vivendo
sem direito a sinopse

Talvez este seja outro crime
a espetacularização da violência
a tragédia virando produto
a narrativa rendendo temporadas
enquanto o lucro
segue intacto

Mas convém lembrar
nada disso é automático

Há sempre um gesto
mínimo
que decide ficar
avançar
ou sair

O clique
essa pequena ética
ainda é do indivíduo.

Nota do autor
    Neste poema, não trato dos crimes em si , não tenho competência nem pretensão para isso. Interesso-me, antes, pela forma como escolhemos observá-los, narrá-los e consumi-los. Não me detenho na figura do "monstro"; esse trabalho pertence a profissionais preparados para investigar, analisar e julgar. O foco aqui é o enquadramento que transforma violência em personagem, a linguagem que converte sofrimento em produto e dor em entretenimento.
    Estes versos não julga plataformas nem absolve o público. Propõe apenas uma pausa para observar um gesto cotidiano, repetido e quase automático, que costumamos chamar de interesse, curiosidade, informação ou até pena. 

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
===============
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Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)