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quinta-feira, agosto 21, 2025

Nem Todos Ninhos Ficarão Vazios

Cap. 1: Ninhos e Pensamentos

✍️O ipê floresceu! O professor explicava Probabilidade e Estatística, enquanto eu, envolvida em meus pensamentos, distraída, observava a paisagem do pátio através das vidraças da sala. As flores coloriam o ambiente com seu vibrante tom de rosa. Conheço todos os rostos dentro dessa sala. Estudamos juntos desde o ensino fundamental, exceto o Jorge, que entrou para nossa turma este ano após seus pais se mudarem da capital para o oeste paulista. "Trabalho", ele me disse alguns dias atrás, quando conversamos na cantina. Suspirei profundamente, perdendo-me em pensamentos, apenas com aquele sorriso. Além de seus cabelos rigorosamente bagunçados, desalinhados de forma organizada, seus olhos azuis destacavam-se em contraste com sua pele bronzeada, evidenciando seu amor pelo ar livre. Talvez eu tenha exagerado um pouco nas minhas observações sobre o garoto mais bonito da sala, porque a atmosfera ficou um pouco estranha depois disso, já que ele percebeu que eu o observava.
    Graças a Deus, a Nina surgiu do nada e me pediu a matéria de português da aula de ontem em que ela havia faltado. Entreguei a ela, mas percebi que mal me encarou, criando um clima pesado que o Jorge também notou, mesmo assim de forma não intencional ela acabou me salvando daquele momento, no mínimo inusitado, por assim dizer. Aproveitei a deixa e também me retirei do local deixando o Jorge sem entender muito o que estava acontecendo.
    Nina é minha melhor amiga desde o jardim de infância. Sempre fomos confidentes naturais, mas no momento, estou preocupada com ela, sinto que algo está acontecendo desde o início do ano, pouco a pouco ela foi se distanciando de mim e de outras amigas da sala, e se tornando displicente com os estudos.
    Nina, até o ano passado, sempre teve um jeito fascinante e inspirador. Dona de cabelos negros que caíam em suaves ondas sobre seus ombros, adicionando um toque de sofisticação à sua aparência, olhos castanho-escuros profundos e expressivos, revelando uma mistura de determinação e vulnerabilidade, Nina, sem dúvida, era a menina mais bonita da escola, aquela que fazia os garotos suspirarem, embora ela não desse muita importância pra essa posição. Seu foco sempre foi nutrir bons relacionamentos de amizade.
    No entanto, ultimamente tenho percebido que ela está perdendo seu brilho, está tão diferente, quase irreconhecível. Preciso descobrir o que está acontecendo.
    As belas flores rosas do ipê escondem parcialmente um ninho vazio de um casal de pombas em um galho alto. Os filhotes deixaram o abrigo seguro recentemente e alçaram voos desengonçados, como se estivessem inseguros. Por alguns dias, eles vagaram assustados pela escola, pois ainda não tinham habilidades suficientes para voar para além deste prédio. Corriam o risco de serem pisados acidentalmente por alguém ou até mesmo se tornarem almoço de algum predador. Era visível o medo que sentiam. Mas ontem de manhã, eles conseguiram voar mais alto que o muro e desapareceram. Seguiram o curso natural, fizeram o que seus pais lhes ensinaram.
    O primeiro semestre do último ano do ensino médio está a algumas semanas de terminar. Dentro de alguns meses, nos despediremos, cada um seguindo seu próprio caminho. Uma grande revoada acontecerá no terceiro ano B. Será que todos abandonarão seus ninhos seguros para alçar voos solitários em novos horizontes? Voar do ninho seguro já foi tudo o que desejei, mas hoje não tenho mais tanta certeza.
    O perfume adocicado das flores do ipê lá fora invade a sala, coincidentemente neste Dia Internacional do Meio Ambiente...um verdadeiro presente da natureza! De onde estou sentada consigo avistar perfeitamente a velha árvore, imponente e bela. Foi meu pai quem me ensinou a apreciar os ipês; aqui em Penápolis eles são abundantes. Meu pai costuma parafrasear Augusto Cury, dizendo: "é preciso apreciar o belo". Ele me ensinou a enxergar nos ipês uma das expressões de beleza da natureza. Até setembro, eles continuarão a florescer em Penápolis. Além do rosa, ainda florescerão os ipês amarelos e brancos. Dentre todos, é com o branco que mais me identifico, é como se eu tivesse uma conexão quase espiritual com ele, pois é um ipê dessa cor que oferece sombra ao túmulo de Leonardo, meu irmão. Que saudade! Após sua morte, muitas certezas deixaram de existir em minha cabeça.

Cap. 2: Sombras Perigosas

✍️Está frio. Embora oficialmente sejam os últimos dias do outono, parece ser inverno, acho que ele já está anunciando sua chegada. É sábado e me dei o luxo de acordar mais tarde. Minha mãe está na cozinha, preparando o almoço, já que adora cozinhar nos fins de semana. Ouvi o barulho do nosso carro saindo da garagem há cerca de cinco minutos, o que significa que meu pai não está em casa. Vou me levantar porque quero falar com minha mãe a sós sobre um assunto que está na minha cabeça envolvendo a Nina.
    Fico parada em pé, observando minha mãe de costas enquanto ela prepara a refeição no fogão. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo, exibindo um preto vibrante com alguns fios brancos entrelaçados de forma caprichosa. Meu pai costuma dizer que, ao olhar aqueles cabelos longos e o rosto moreno e sereno, ele não teve dúvidas de que aquela era a mulher da sua vida. Eles estão juntos há mais de vinte anos.
    Dizem que sou uma cópia perfeita da minha mãe, exceto por três pequenos detalhes: a ausência de fios brancos em meu cabelo e algumas rugas de expressão ao redor do rosto, (nada que o tempo não se encarregue de trazer) e a cor dos olhos, pois do meu pai herdei os olhos verdes.
    Enquanto a observava pensei no quanto eles devem sentir falta do meu irmão, pois tudo aconteceu muito rápido, seis meses separaram a descoberta da doença e a morte do meu irmão. Um garoto de oito anos partir tão cedo e de uma forma tão sofrida é uma experiencia muito traumática e vê-los sofrendo e superando um pouco a cada dia me fez repensar muitas coisas...
    Certa vez os ouvi dizendo a um casal de amigos, uma semana depois da morte do Leonardo, que apesar da dor precisavam continuar em frente, pois tinham uma filha para cuidar. Naquele dia, há três anos, comecei a pensar em não sair do ninho para não deixá-los sozinhos, afinal como eu poderia ir depois de tudo que eles estavam enfrentando por mim?
    Suspirando voltei ao momento presente, agora minha atenção precisava estar toda na Nina, minha amiga estava precisando muito de mim, pelo menos era o que meu instinto me dizia.
    — Mãe.
    — O que foi, filha? — Ela respondeu enquanto provava o tempero da carne que estava refogando.
    — Mãe, estou muito preocupada com a Nina.
    — Com o que exatamente? - Indagou minha mãe.
    Me silenciei por um instante, pensando no que ia falar. Afinal, que provas eu tinha, além de desconfiança? A Nina sequer tinha tocado no assunto, e eu tampouco havia tido coragem de ir tão fundo em um assunto tão espinhoso, mas instintivamente eu achava que sabia que algo muito grave estava acontecendo com minha amiga.
    — Desembucha, Letícia! — Exclamou minha mãe.
    — Acho que a Nina está pensando em suicídio.
    — Minhas palavras saíram trêmulas, carregadas de preocupação. Minha mãe se virou para mim, colocou sobre a pia a colher de pau que estava usando. Seu semblante denotava a gravidade do assunto que eu havia mencionado.
    — O que te faz ter essa certeza? — Minha mãe sempre foi muito cuidadosa ao conversar sobre assuntos sérios comigo, como quando abordou questões relacionadas a namoro, virgindade, sexo, gravidez, drogas... Ela sempre se pautou na coerência, especialmente quando envolvia terceiros, e dessa vez não seria diferente.
    — Não sei, mãe, não é uma certeza, na verdade é uma desconfiança... ultimamente conversamos tão pouco! Nem parece que estamos estudando juntas há anos... A última vez que nos falamos foi na cantina a alguns dias, quando ela me procurou para pedir o caderno de língua portuguesa pra copiar uma matéria do dia anterior, já que ela tinha faltado, aliás ela tem faltado bastante. — Depois, mãe, - prossegui enquanto minha mãe continuava atenta a cada palavra que eu falava. — Como você sabe, a mãe da Nina se suicidou quando ela era uma criança. Assim que terminei de expor minhas suspeitas em voz alta passei a duvidar delas, mas se não fosse isso o que então estaria acontecendo na vida da Nina? Porque uma coisa eu tenho certeza, está acontecendo algo grave!
    Minha mãe suspirou e se aproximou de mim, colocando as mãos em meus ombros, compreendendo a seriedade da minha preocupação. Com uma voz carregada de empatia, ela disse:
    — Letícia, eu entendo sua preocupação e valorizo sua intuição, também compreendo o peso que você está carregando em seu coração. Fique atenta aos sinais filha, isso é muito sério! Ela pode estar sofrendo em silêncio, com medo de contar a alguém. O melhor que você pode fazer agora é ficar perto dela, estar atenta e oferecer seu apoio.
    —E se ela estiver mesmo pensando em tirar a própria vida, mãe? Você se lembra que no ano passado, um garoto do terceiro ano tomou essa triste decisão? Eu o conhecia, foi muito triste, o clima na escola mudou por um bom tempo, disse eu. —Lembro que na época um professor comentou com a gente na sala de aula que o número de suicídios entre jovens tem aumentado de forma assustadora nos últimos anos. Sinceramente, tenho medo de que a Nina possa estar pensando em fazer parte dessa estatística.
    Minha mãe respondeu com compreensão:
    —Entendo o seu receio, minha filha. E sei que sua preocupação é verdadeira. O suicídio entre os jovens é um grave problema de saúde pública. Como sociedade, precisamos nos comprometer a enfrentar essa questão. O poder público até faz uma campanha no mês de setembro, há anos, eles chamam de “Setembro Amarelo”, com o intuito de alertar e conscientizar as pessoas sobre esse perigo que ronda silenciosamente todas as camadas da sociedade.
    —É natural que você fique preocupada. Se há algum sinal de que sua amiga possa estar pensando nisso, é algo sério. Não se pode fechar os olhos para isso. É importante cuidarmos uns dos outros e oferecer apoio. E não tem outro jeito, você precisa conversar com ela, filha. Vocês sempre foram grandes amigas, e tenho certeza de que ela confiará em você.
    Me aconcheguei em um abraço apertado e afetuoso que minha mãe me deu. Senti-me aliviada por ter tido aquela conversa. Sabia que a jornada para descobrir a verdade seria desafiadora, mas estava determinada a ajudar minha amiga de qualquer maneira possível. Ansiava por encontrar uma forma de trazer luz para a escuridão que estava envolvendo a vida de Nina.
    A última semana de junho foi marcada pelo frio intenso, e pelo fechamento das notas do primeiro semestre. Para minha surpresa, desta vez não obtive as melhores médias da sala, caindo para o segundo lugar. Sentia uma mistura de frustração e determinação em recuperar minha posição no próximo semestre. No entanto, o que realmente me preocupava eram as notas da Nina, que despencaram drasticamente, indo do top três para as piores da turma. Era difícil testemunhar minha melhor amiga passando por aquela situação.

Cap. 3: Indagação e surpresas

✍️Era intervalo de aula, e eu me afastei do barulho ensurdecedor dos alunos que conversavam sem parar. Sentei-me em um banco de madeira distante da quadra poliesportiva, aproveitando aqueles preciosos minutos para refletir tranquilamente sobre a situação da minha amiga Nina. O sol fraco tentava aquecer a manhã fria e ventosa, enquanto eu buscava respostas para as minhas inquietações. Meus esforços para compreender seus sentimentos pareciam falhar, e a distância entre nós só aumentava. Nina nem sequer sentava mais comigo ou com os outros amigos durante o intervalo. Agora, eu a observava enturmada com alguns garotos e garotas que, desculpe a presunção, pareciam não se importar com o futuro.
    Fiquei sabendo que ela ficou de recuperação em quase todas a matérias, inclusive em matemática, em que sempre foi excelente. Eu mesma já tirei inúmeras dúvidas de matemática com ela, o que tornava a situação ainda mais estranha. Parecia que ela estava se sabotando de propósito, mas não conseguia entender por quê. Algumas garotas da sala disseram ter visto Nina fumando no banheiro da escola em mais de uma ocasião, o que corroborava com o cheiro repugnante de cigarro que sentia quando me aproximava dela.
    Imersa em meus pensamentos, levei um susto quando Jorge se sentou ao meu lado no banco de madeira. Ele não disse uma palavra, apenas me encarou com um sorriso bobo no rosto, seus olhos brilhando com uma mistura de nervosismo e ousadia. As bochechas dele estavam avermelhadas, talvez pelo frio, talvez por algo mais.
    Desde a nossa conversa na cantina, Jorge tinha se aproximado mais de mim, e nossos olhares se encontravam com cada vez mais frequência. Eu estava confusa, incapaz de articular uma palavra, apenas absorvendo o momento. O nervosismo se espalhava pelo meu corpo enquanto eu tentava decifrar seus sentimentos. Ele também parecia incerto sobre suas intenções.
    Decidi perguntar o que ele queria, mas antes que eu pudesse abrir a boca, fui surpreendida pelo toque dos lábios dele nos meus. O beijo foi desajeitado e estranho, um selinho roubado repleto de insegurança. Jorge havia cruzado a linha da amizade, e o calor de seus lábios contra os meus enviou uma onda de surpresa e um sentimento mágico que se espalhou por todo o meu corpo.
    Aqueles milésimos de segundos pareceram durar horas. Fiquei imóvel, absorvendo a intensidade daquele momento, enquanto Jorge, também impactado pela ousadia de seu gesto, se afastou rapidamente, da mesma forma que chegou, sem dizer uma palavra. O som do sinal do fim do intervalo ecoou por toda a escola, anunciando o início da próxima aula, mas eu permaneci paralisada, observando-o se afastar e seguir em direção à nossa sala.
    Após aquele instante suspenso no tempo, a preocupação com Nina retornou com força total. Eu sabia que era hora de agir e descobrir o que estava acontecendo com ela. As férias escolares estavam prestes a começar, e eu estava determinada a encontrar respostas e ajudar minha amiga de qualquer maneira possível.
    Fui a última a entrar na sala e percebi que Jorge me olhava de maneira diferente, com uma mistura de nervosismo e tensão. Alguns colegas da classe trocavam sorrisos maliciosos, o que me fez supor que eles haviam testemunhado o nosso beijo. Era aula de física e o professor estava de costas, concentrado em escrever no quadro
e nem percebeu que eu estava atrasada. Sentei-me atrás do Jorge rapidamente, não havia mais dúvidas, a ousadia dele já havia se tornado pública. Olhei para o lado, Nina permanecia estática e indiferente ao que estava acontecendo.

Cap. 4: Sorvetes e Beijos

✍️Julho chegou, trazendo consigo o clima seco e frio que persistia há mais de três semanas, com a falta de chuvas e uma umidade extremamente baixa, o que não me impediu de atravessar a cidade pedalando após o almoço para encontrar Jorge na praça Dr. Carlos Sampaio Filho, no centro da cidade.
    Antes de sair de casa, combinamos o encontro por meio de mensagens no WhatsApp. Ele estava animado com a ideia e sugeriu a praça como ponto de encontro. Enquanto me aproximava do local combinado, meu coração batia acelerado, misturando a expectativa do nosso primeiro encontro com a ansiedade pelo que estava por vir.
    Ao chegar lá, avistei Jorge, que já me esperava ansiosamente. Ele segurava dois sorvetes, um em cada mão. Lembrei-me de uma conversa casual que tivemos semanas atrás na cantina da escola, na qual ele perguntou qual era o meu sabor favorito. Sem hesitar, respondi "paçoquinha". E para a minha surpresa, ele havia se lembrado disso. Um sorriso encantador se formou em seus lábios ao me ver, e ele se aproximou de mim entregando-me as duas casquinhas geladas. Em seguida, gentilmente, ele prendeu minha bicicleta no poste junto com a dele usando o mesmo cadeado.
    Enquanto apreciávamos os sorvetes gelados que congelava o céu das nossas bocas, me perguntei diante do clima frio, se algo quente para beber não teria sido uma escolha mais apropriada, pois até trocávamos os sorvetes de mão constantemente para não congelar nossos dedos. Conversamos sobre assuntos diversos, sem muita profundidade. A atmosfera estava leve e descontraída. Em um momento de brincadeira, Jorge acabou derrubando o resto de seu sorvete de chocolate em sua própria blusa, que exibia a estampa da Turma da Mônica Jovem. Ambos rimos da situação, compartilhando um momento de cumplicidade. Foi nesse instante que algo mudou no ar, e pude sentir uma tensão vibrante entre nós.
    De repente, Jorge me encarou profundamente, seu olhar cheio de ousadia e curiosidade. Seus olhos fixaram-se nos meus lábios, e o tempo parecia ter desacelerado. Minhas emoções oscilavam entre o nervosismo e a expectativa. E então, o esperado aconteceu, ele me beijou, fazendo meu coração disparar.
    Foi um beijo mágico que transcendeu todas as preocupações e incertezas. Por um instante, esquecemos o mundo ao nosso redor e nos entregamos a àquele momento de intimidade e conexão. Foi um beijo repleto de emoção, carregado de paixão e desejos contidos, quase nos deixando sem fôlego.
    Após o beijo, nossas mãos se entrelaçaram, e continuamos ali, contemplando a beleza dos ipês floridos na praça. O brilho das flores reluzia, emoldurando nosso pequeno universo de sentimentos. Aquele momento único e especial me trouxe uma sensação de paz e felicidade, como se nada mais importasse além daquele momento mágico que estávamos vivendo. O mundo ao nosso redor parecia nos ignorar, deixando apenas nós dois ali, conectados pela força do amor e da juventude.
    Enquanto nossos olhares se perdiam nos ipês floridos compartilhávamos sorrisos e sussurros suaves. O perfume doce e delicado das flores impregnava o ar, criando uma atmosfera envolvente e romântica, que embelezou nossa despedida naquele fim de tarde, enquanto o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons alaranjados e dourados.


Cap. 5: Setembro Amarelo

✍️O dia amanheceu extremamente frio. Durante o café da manhã meu pai disse que a meteorologia estava prevendo um dos invernos mais rigorosos dos últimos tempos para nossa cidade, algo muito incomum para nós penapolenses, que não costumamos enfrentar temperaturas tão baixas por longos períodos. Enquanto absorvia essa informação e ainda pensava no encontro com Jorge na tarde anterior, abri o meu celular e me deparei com uma mensagem da Nina, curta e direta: apenas um "oi". Finalmente, ela estava me procurando, pensei. Sem hesitar, liguei imediatamente para ela. Ao atender, a conversa começou de forma um tanto fria, com uma atmosfera formal que não fazia sentido entre amigas, não que esse estranhamento diminuísse minha alegria em finalmente falar com ela outra vez.
    Conforme a conversa avançava, eu me esforçava para tornar o diálogo menos constrangedor e evitava tocar no assunto que me atormentava há meses. Após alguns minutos, propus a ideia de nos encontrarmos, na minha casa ou na dela, depois do almoço. Para minha surpresa e alegria, ela aceitou, mas sugeriu que fosse em outro local. Concordei prontamente com a sugestão.
    Durante o almoço, comentei com minha mãe sobre o encontro que teria mais tarde. Ela demonstrou genuína felicidade e fez algumas recomendações pontuais, mas enfatizou que confiava na minha habilidade para levar a conversa pro caminho certo.
    — Afinal, você é a melhor amiga dela. — disse minha mãe.
    — Não sei, mãe. Já fui, mas hoje não tenho tanta certeza. — Respondi, enquanto meu pai acabava de chegar escutando apenas a última frase. Sem entender completamente o que estava acontecendo ele afagou meus cabelos e concordou com o que minha mãe havia dito. Nós duas rimos, enquanto ele se sentava à mesa tentando compreender a situação. A descontração familiar naquele momento fez com que eu relaxasse um pouco.
    O local combinado com Nina foi a praça da Vila Fátima. Felizmente, segui a sugestão da minha mãe e peguei um casaco. Naquela tarde, o sol desistiu de vez de brilhar e se escondeu atrás de nuvens densas. O ar frio e cortante circulava pela praça, envolvendo-nos em seu abraço gelado. O chão estava repleto de pétalas de flores amarelas que caiam suavemente dos ipês.
    Ao nos encontrarmos, nos cumprimentamos apenas com acenos de cabeça, diferente dos abraços calorosos que costumávamos trocar. Escolhemos um banco afastado das ruas, no meio da praça, enquanto ao fundo o som alegre das crianças na creche adjacente à praça ao lado da acolhedora igreja dedicada à Nossa Senhora de Fátima, ecoava, criando um contraste completo com o momento que vivíamos.
    Ao observar Nina mais atentamente, fui negativamente impactada. Seus cabelos estavam desgrenhados, ela vestia roupas totalmente negras e calçava coturnos pesados. Seus lábios estavam pintados com um batom roxo intenso, e ela usava óculos escuros que encobriam seu olhar. Brincos de caveira adornavam suas orelhas. O incômodo odor de cigarro impregnava sua presença, emitindo um cheiro desconfortável.
    Apesar de ter ensaiado inúmeras vezes as palavras que pretendia dizer, no momento em que estava diante dela, elas desapareceram por completo. Agora, eu parecia mais uma atriz em uma peça teatral improvisando no palco ao vivo.
    — Nina, o que está acontecendo, minha amiga? — perguntei, com apreensão e preocupação estampadas em meu rosto.
    Diante de seu silêncio que se seguiu, decidi mergulhar ainda mais fundo naquelas águas escuras e perigosas e abordar o assunto delicado.
    — Nina, você está pensando em suicídio? — arrisquei, sentindo um calafrio percorrer minha espinha. Essas palavras pareceram fazer efeito, e pude perceber que tinham algum significado.
O corpo dela inteiro se estremeceu. Ela retirou os óculos escuros e os colocou ao lado, sobre o banco. Percebi seus olhos vermelhos e inchados de chorar. Naquele momento, meu primeiro impulso foi chorar também, mas me controlei. Precisava dar apoio a ela, pois tive um vislumbre do quanto Nina estava sofrendo. Seus lábios tentaram pronunciar algumas palavras, mas não conseguiu. Uma leve neblina começou a cair, gelando ainda mais o ambiente.
    Levantei-me e segurei de forma firme, mas carinhosamente, suas mãos, puxando-a para perto de mim. Em um abraço acolhedor e ela se deixou cair sobre meus ombros, desabando em um choro incontrolável. Eu dei a ela todo o tempo que precisava. Enquanto estávamos abraçadas, olhei para o céu fechado, com a neblina caindo sobre nós e congelando nossos corpos, menos o meu coração. No entanto, diferentemente daquele clima sombrio, os ipês carregados de flores amarelas estavam ali, balançando ao vento e enchendo a praça com suas pétalas úmidas e perfume delicado. Aquela visão me fez refletir sobre o "setembro Amarelo" que minha mãe havia mencionado, “um mês dedicado à conscientização e prevenção do suicídio”, lembrei-me das palavras dela. Uma ideia surgiu em minha mente: Se a Nina conseguisse se recuperar um pouco, talvez ela pudesse organizar uma campanha na escola no próximo mês de setembro, levando apoio, informações e esperança para tantos outros alunos. O tempo era curto, mas se eu conseguisse despertar esse desejo nela isso poderia beneficiar a ela e muitas outras pessoas, afinal manter-se ocupado em algo significativo é fundamental para superar o desejo de morrer, pelo menos foi o que li enquanto pesquisava para entender melhor o que eu imaginava que minha melhor amiga estava passando. Nina foi se recompondo, então decidi plantar uma semente naquele solo que no momento não parecia fértil suficiente para germinar.
    —Nina você já ouviu falar em “Setembro Amarelo”?
    Ela passou as mãos no rosto enxugando as lágrimas com o punho da blusa.
    —Sim. Ela me disse, com um soluço no meio.
    —Então, na nossa escola não existe este trabalho de conscientização...
    Com sutileza, pois não sabia com certeza o que a havia levado a cogitar a morte como opção tentei persuadi-la de que assumir a tarefa de falar com outros jovens sobre o assunto pudesse ser um caminho pra seguir em frente e encontrar um novo motivo pra continuar vivendo. Por fim acabei não me segurando e deixei rolar algumas lágrimas, acho que uma parte de mim estava tão desesperada pra que ela aceitasse a minha sugestão como uma forma de se agarrar a vida que perceber que ela ao menos estava me ouvindo aliviou de certa forma o peso que estava sobre mim. Nos despedimos, com a promessa de que continuaríamos aquela conversa a noite, por celular no conforto das nossas casas, pois o frio estava tornando-se insuportável e nossas roupas começavam a molhar com a neblina que caia. Olhei pra ela mais uma vez antes de me afastar e acho que vi uma fagulha de esperança em seus olhos antes que ela colocasse mais uma vez os óculos de sol.

Cap. 6: Construindo Laços Afetivos

✍️Havia se passado uma semana desde o dia do meu primeiro beijo com o Jorge, desconsiderando aquele selinho de semanas atrás na escola. Desde então, nos encontramos mais duas vezes, criando momentos especiais em nossa curtíssima história. O primeiro desses dois encontros foi em um aconchegante café no centro da cidade. À medida que adentrávamos o local, senti o aroma delicioso do café fresco.
    Sentamos em uma mesa reservada, um pouco afastada do movimento. Embora o ambiente não estivesse lotado naquele horário da tarde, preferimos aquela mesa no canto, buscando um pouco mais de privacidade. Eu pedi um cappuccino bem cremoso e Jorge uma xícara grande de café sem açúcar, e de sobremesa, pedimos dois pedaços generosos de bolo de chocolate. Enquanto a conversa ia se desenrolando, pude observar o brilho nos olhos do Jorge ao falar sobre seus sonhos e aspirações, o que era absolutamente encantador.
    Eu disse que estava em dúvida se seria uma advogada ou uma bióloga, ele compartilhou seu desejo de estudar medicina em Buenos Aires, na Argentina, o que instantaneamente me fez imaginar quão distantes poderíamos estar no próximo ano. No entanto, decidi não me deixar levar por esses pensamentos no momento, focando em aproveitar cada instante ao seu lado.
    O encontro estava sendo prazeroso, compartilhávamos nossas histórias e sonhos totalmente despreocupados.
    Em certo momento percebi que não sentia frio, então tirei meu agasalho e o coloquei no suporte de uma cadeira vazia ao meu lado. Apesar do frio lá fora, o ambiente do café, sem ares-condicionados ou ventiladores ligados, proporcionava um clima agradável. As paredes e o teto pintados de preto davam uma aparência retro e agradável ao lugar.
    Em um momento de descontração, enquanto eu dava uma mordida no meu pedaço de bolo, percebi que Jorge tinha um olhar cobiçoso em direção à minha sobremesa. Com um sorriso travesso, ele rapidamente esticou a mão e roubou o resto da minha sobremesa, colocando o pedaço inteiro dentro da boca. Fiquei pasma com aquela ação, pois até então era eu quem costumava usurpar algo do prato, seja da minha mãe ou do meu pai.
    No impulso de retribuir aquela brincadeira, me inclinei na direção de Jorge, fingindo que ia pegar a sobremesa dele. Encarei aqueles olhos azuis esbugalhados, ele tentava manter a boca fechada, segurando a vontade de rir. Sem hesitar, dei-lhe um beijo rápido. O problema foi que, no meio desse momento inusitado, acabei derrubando sem querer a xícara de café que estava sobre a mesa. O líquido quente caiu no colo de Jorge, que deu um pulo para trás, caindo juntamente com a cadeira, causando um pequeno alvoroço no café. Ele tossia pedaços de bolo enquanto caído no chão se contorcia em gargalhadas e eu acabei não conseguindo conter um grito esganiçado.
    As pessoas ao redor nos olharam assustadas com o escândalo dos adolescentes atrapalhados, e o ambiente ficou quase em silêncio, onde só se ouviam as tosses do Jorge e os passos rápidos de um garçom em nossa direção. O funcionário foi solícito e o ajudou a se levantar. Depois de recuperado, ele sentou-se em outra cadeira, enquanto uma funcionária limpava nossa bagunça. Os clientes entenderam que não foi nada sério e começaram a rir da situação, percebendo que ninguém tinha se machucado.
    Enquanto nos recompúnhamos, com os rostos corados de vergonha, pagamos a conta e deixamos o local. Porém, ao nos dirigirmos para a saída do café, eu acidentalmente esbarrei na cadeira de uma senhora idosa. Ela olhou para mim com um sorriso largo e encantador, dizendo: "Eu também, na sua idade, era apaixonada assim, minha filha." Ela apontou para o senhor sentado ao lado dela, que exibia um sorriso de quem ama e é amado, segurando sua mão com tanta cumplicidade. Nesse momento, olhei para os cabelos brancos daqueles dois e senti uma onda de ternura percorrer meu corpo. Enquanto deixávamos o ambiente, desejei secretamente que, no futuro, nós também pudéssemos ter essa mesma paixão e cumplicidade que aquele casal idoso demonstrava.
    O segundo encontro ocorreu no shopping, na mesma noite. Dessa vez, não estávamos sós, um casal de amigos que não estuda conosco nos acompanhava. Exploramos as lojas, olhando as vitrines, enquanto, na maioria das vezes, os meninos estavam conversando atrás de nós pacientemente, segurando nossas bolsas. Compartilhamos risadas e experiências enquanto caminhávamos pelos corredores movimentados em direção à praça de alimentação. Não só eu, mas acho que nós quatro fomos fisgados pelo estômago com o cheiro delicioso e convidativo.
    Depois de saciarmos nossa fome com lanches que se tornaram nosso jantar, decidimos aproveitar um momento de descontração no cinema do shopping. Os garotos estavam inclinados a assistir "Oppenheimer", mas nós, meninas, com nossa convicção, charme feminino e poder de persuasão, conseguimos convencê-los a assistir "Barbie". Nos divertimos muito, e os garotos acharam inusitado o mundo cor-de-rosa da protagonista.
    Saímos do cinema e nos separamos do casal de amigos. Paramos em frente a uma loja de semijoias, enquanto Jorge olhava os relógios na vitrine meus olhos foram atraídos pelos brincos e colares. Uma vendedora nos observava, dirigindo-se para a porta de saída. Subitamente, meus olhos se fixaram ao lado esquerdo, no canto superior da vitrine em um par de alianças cravejado com pequenas pedras de diamante, acho que o Jorge aproveitou daquele meu fascínio pelas alianças.
    — Quer ser minha namorada? — disse em meu ouvido. Olhei para ele, sem saber o que dizer. Embora soubesse que nossos encontros estavam caminhando naturalmente para esse momento, não esperava ser pedida em namoro ali. Fiquei sem reação, e então ele me deu um beijo nos lábios. Enquanto a vendedora se preparava para fechar o estabelecimento, ao nosso lado, ela nos olhou carinhosamente e sorriu. Retribuí educadamente com outro sorriso, mergulhada em mar de emoções. Não consegui formular uma resposta para o Jorge, que me encarava com aquele sorriso bobo e despretensioso que vinha me conquistando. Peguei a mão dele, e seguimos como dois enamorados pelo corredor do shopping, enquanto nossos corações falavam por nós.
    Logo em seguida, uma pontinha de preocupação surgiu em minha mente, pois era cada vez mais nítido que tínhamos uma conexão especial, e ela se mostrava verdadeira e intensa, mas logo iriamos para faculdade e a distância seria um problema.
    Será que aquele casal de idosos que vimos hoje no café, em algum momento distante no passado, enfrentou essa mesma fase de paixão e incerteza? Talvez eles tenham passado por desafios semelhantes aos que poderemos enfrentar no futuro, como a distância. Já em casa, deitada na minha cama, me dei conta de que não havia respondido ao pedido de namoro do Jorge, mas minha resposta vai ser sim. Acho que ele já sabe disso também, cada vez mais percebo que estamos escrevendo nossa história juntos, criando memórias preciosas que podem durar para sempre.

Cap. 7: Tempestades Internas

✍️Fim de agosto. Quase um mês se passou desde o retorno do recesso escolar, e tantas coisas mudaram. O ipê rosa do pátio da escola que se erguia sobre o banco em que eu estava sentada, agora estava despido de suas folhas e flores. O céu apresentava um tom escuro, indício de uma tempestade iminente e as nuvens densas emprestavam à manhã um ar sombrio. Certamente, com o retorno das chuvas, esse inverno árido se dissolveria e o ipê ressurgiria, adornado com uma plumagem verdejante. Um ciclo perfeito da natureza.
    Enquanto aguardava minha mãe vir me buscar, minha mente vagava pelas mudanças ocorridas após quatro semanas de retorno às aulas. A incerteza em relação ao futuro parecia pesar ainda mais em meu coração.
    Decisões que antes pareciam distantes agora batiam à minha porta, exigindo uma resposta iminente. A temporada de simulados estava a todo vapor, e os vestibulares se aproximavam. Eu precisava decidir muitas coisas que impactariam minha vida daqui para frente: precisava decidir se seria, advogada ou bióloga, a possibilidade de estudar na minha cidade natal ou fora. Essas questões faziam meus neurônios ferverem à beira da exaustão. Além disso, a perspectiva de deixar meus pais e voar para longe, em busca do meu futuro, trazia o medo de abandonar o ninho e encarar o desconhecido.
    A escola estava quase vazia neste horário, a maioria dos estudantes já havia ido embora, incluindo Jorge. Muitos se dedicariam aos livros nesta tarde, imersos em suas preocupações, buscando encontrar seu lugar no mundo, assim como eu.
    Recentemente, atualizei meu status de "solteira" para "comprometida com um garoto incrível". Eu e Jorge estávamos oficialmente namorando há duas semanas e sentíamos uma química especial entre nós. Tenho vivido momentos maravilhosos ao seu lado, mas começo a ponderar até que ponto devo me envolver nesse relacionamento. Afinal, a chance de estudarmos na mesma cidade, ou melhor, no mesmo país no próximo ano é bastante remota. Esses pensamentos invadem minha mente, trazendo uma mistura de alegria e apreensão. Ainda estamos nos conhecendo, explorando a conexão que surge entre nós e cada abraço, cada risada compartilhada fortalece os laços que estamos construindo, no entanto, a realidade de um futuro distante me confronta, lançando raios de incerteza em meu horizonte.
    Pego meu celular e dou uma olhada rápida nas mensagens. Jorge enviou um emoji para me avisar que já está em casa. Respondo com um "ok" seguido de um coraçãozinho apaixonado. Os dois risquinhos azuis indicam que ele visualizou minha mensagem imediatamente. Vejo o aviso de que ele está digitando uma resposta no topo da tela do meu aparelho, aguardo ansiosamente.
    — Oi gata, sua mãe já te buscou? - ele pergunta.
    — Ainda não, amor. Vou mandar uma mensagem para ela. - Respondo.
    — Ok. Vou comer alguma coisa e depois cair em cima dos livros.
    — Está bem, amor. Beijos.
    — Beijos, gatinha. – Ele me responde carinhosamente via texto.
    Envio uma mensagem de voz para a minha mãe perguntando onde ela está e o motivo do atraso. Ainda segurando o aparelho em minha mão, minha mente começa a divagar sobre Nina. A reunião na praça terminara presencialmente, mas continuou depois do jantar pelo telefone. Nina compartilhou comigo seu mergulho gradual na depressão e enquanto ela falava me lembrei de uma frase que dizia: “quando olhamos para o abismo por muito tempo, ele acaba olhando de volta para nós”, que descreve exatamente o que aconteceu com ela. Em suas narrativas, inicialmente por chamadas de vídeo e depois por mensagens, ela me contou sobre a perda de sua mãe quando tinha apenas quatro anos. No início, ninguém lhe contou a verdade, acharam que ela não entenderia. Frases prontas de adultos como "Mamãe foi morar no céu", dizia um avô, ou "Ela está com os anjos", dizia uma tia. Seu pai limitava-se a dizer que a mãe estava em um lugar onde não podiam vê-la. Geralmente, eles falavam e enxugavam algumas lágrimas. Alguns dias depois, levaram-na a uma psicóloga que explicou de forma didática que sua mãe havia morrido. Ela não compreendeu completamente na época, mas sabia que queria ver sua mãe. Aos onze anos, ela descobriu sobre o suicídio. Porém, naquela família, falar sobre esse assunto era quase como uma blasfêmia, e assim, seu interesse em descobrir o que era o suicídio e por que sua mãe havia tirado a própria vida, mesmo tendo uma filha pequena que ela amava, ficou quase adormecido até o fim do ano passado, quando ele reapareceu e então ela mergulhou de vez nessa busca. Ela foi percebendo que seu pai se culpava de alguma forma inexplicável pela morte da esposa, não demorou muito para que ela começasse também a se sentir culpada. Minha amiga havia olhado tempo demais para o abismo, e o abismo sorriu para ela.
    Ontem, em meio aos estudos e às pressões de todos os lados, tivemos a oportunidade de conversar um pouco aqui na escola durante o intervalo.
    Nina me confessou que está fazendo terapia junto com seu pai com um profissional renomado, e o suicídio de sua mãe está deixando de ser um tabu na família. Ambos estão percebendo que não tiveram culpa no suicídio, que ela estava doente sofrendo de um quadro grave de depressão, que não foi devidamente tratada devido à falta de conhecimento e compreensão.
    Aproveitei o momento e mencionei novamente o "Setembro Amarelo" e fiquei encantada ao ver um sorriso rejuvenescedor iluminando o rosto da minha amiga que me contou que já havia procurado a direção da escola pra conversar a respeito e que foi muito bem recebida por eles que concordaram em promover a campanha no colégio. Senti nela a determinação e o entusiasmo contagiante de quem queria fazer a diferença! ela já havia começada a planejar palestras e atividades que abordariam a importância da saúde mental e a prevenção do suicídio, com o apoio do seu pai e da direção, juntamente com alguns professores. A escola abraçou a ideia, reconhecendo a relevância desse tema e a necessidade de promover um ambiente saudável para seus estudantes. A campanha estava prestes a começar, e Nina estava determinada a fazer a diferença na vida de seus colegas, contando sua própria experiência, mostrando-lhes que nunca estão sozinhos em suas lutas internas.
    Quanto às suas notas, ainda é cedo para saber se ela conseguirá se recuperar das pontuações baixas do primeiro semestre, no entanto, ela está obcecada em melhorar.
    Ao colocar meu celular dentro da bolsa, meus dedos tocaram um pedaço de papel dobrado. Era uma foto. Quando a abri, meus olhos se encheram de lágrimas imediatamente. Era uma fotografia minha sentada em uma cadeira da varanda, segurando meu irmãozinho no colo pela primeira vez, e eu estava com uma expressão no rosto cheia de raiva.
    Eu tinha seis anos na época, e até então eu era a filhinha do papai, a princesinha da mamãe. Eu queria continuar assim, mas alguns meses antes daquela foto ser tirada, comecei a perceber que a barriga da minha mãe estava ficando maior. Porém, só fiquei preocupada quando ela me disse que meu irmãozinho estava lá dentro, se preparando para nascer. Lembro que fiquei indignada e disse para mim mesma: "Irmãozinho! Ninguém me perguntou se eu queria ter um irmão. E, é claro que eu não quero! Porque querem colocar um pentelho aqui chamando meu pai e minha mãe de pai e mãe também?"
    Mas é claro que a vida seguiu seu curso e meu irmãozinho nasceu e aos poucos, aquele pentelhinho enérgico e brincalhão, com cabelos encaracolados e grandes olhos castanhos cheios de curiosidade conquistou meu coração. Desde muito pequeno ele tinha uma pressa por viver, como se soubesse que teria pouco tempo neste mundo. Não teve como não me apaixonar por ele e isso me fez sofre ainda mais quando aos oito anos ele foi diagnosticado com uma doença gravíssima. Parecia que meu desejo de menina pequena que queria ser filha única estava sendo atendido com atraso, no entanto eu já havia mudado de ideia a muito tempo e não podia mais viver sem ele. Tentei negociar com a vida de todas as maneiras, fiz todas as promessas que pude para que ele permanecesse comigo, mas nada foi suficiente...
    Primeiro, meu irmão começou a aparecer com hematomas inexplicáveis pelo corpo, depois, ele começou a se queixar de fadiga e fraqueza. Meus pais decidiram levá-lo ao médico, e quando eles voltaram, pude perceber pelas expressões preocupadas em seus rostos que poderia ser algo sério. Eles só me contaram duas semanas depois, quando os resultados dos exames do meu irmãozinho ficaram prontos.
    Meu irmão havia ficado internado, e eu estava em casa estudando. Era uma tarde de quinta-feira, a mais de três anos atrás, quando meus pais entraram no meu quarto. Eu já tinha uma intuição de que algo grave estava acontecendo, meu coração estava apertado, e meus pais me olharam cheios de preocupação. Naquele momento, o silêncio se instalou e eles se aproximaram, com um semblante carregado de tristeza. Com as mãos trêmulas e os olhos marejados, eles ficaram parados à minha frente por um breve instante, até encontrarem coragem para falar. As palavras escaparam em meio a soluços presos entre os dentes:
    — Leucemia. O Leonardo está com leucemia em estágio muito avançado – murmurou meu pai.
O chão pareceu sumir, meu mundo desabou. O desespero inundou o ambiente, e meus pais me abraçaram com força, tentando me confortar. Lágrimas rolaram dos nossos rostos, enquanto meus gritos e os da minha mãe ecoavam contra as paredes. Meu pai engoliu o próprio choro para poder amparar minha mãe e a mim naquele momento. O destino cruel desafiaria nossa família pela primeira vez. Se ele ainda estivesse conosco faria aniversário no próximo feriado, Sete de Setembro...
    As lembranças fizeram-me reviver um passado doloroso, lágrimas escorreram dos meus olhos. Ouço uma leve buzina vindo de um carro parado em frente ao portão da escola. Enxugo as lágrimas do meu rosto enquanto tento identificar a mulher que faz sinal para mim. Caramba, é a minha mãe, mas aquele não é o nosso carro.
    — O que aconteceu que você está com outro carro, mãe? - pergunto enquanto me acomodo dentro de um veículo mais novo do que o nosso.
    — O nosso quebrou, Letícia. Tive que acionar o seguro, e eles cederam este aqui até consertarem o nosso. Por isso atrasei – responde ela, enquanto observa meu rosto, percebendo que chorei.
    Ela dá uma saída meio brusca com o carro e freia em seguida, fazendo com que eu seja jogada para frente e para trás. Por sorte, já estava com o cinto de segurança.
\    — Desculpa, filha. Este veículo é automático e eu não tenho muita prática com esse tipo de direção. Mas me diga, o que aconteceu? Por que seus olhos estão vermelhos? - Ela me olha com preocupação, e eu balanço a cabeça indicando que não foi nada, embora saiba que ela não acreditará na minha resposta.
    — Filha, tenho sentido que você está ansiosa. Percebi que até começou a roer as suas unhas. Eu sei que algo além do normal está passando na sua cabeça, só não sei o que é exatamente. Para te ajudar, preciso que se abra comigo, assim como sua amiga Nina se abriu, e você pôde ajudá-la.
    Olho para ela, sabendo que ela está certa. A comparação com o que aconteceu com a Nina me incomoda profundamente. No fundo, eu sei que só serei ajudada se me abrir e compartilhar o que está acontecendo comigo. E isso me amedronta profundamente.
    — Mãe, podemos conversar à noite no jantar. Quero que o pai também participe dessa conversa.
    Ela confirma com um balançar positivo de cabeça, enquanto parece fazer um esforço para dirigir aquele carro.
    No fundo, eu sei que posso confiar na minha mãe. Ela sempre está presente e disposta a me ajudar, mas mesmo assim o medo me corrói por dentro: o medo intenso de magoá-la e magoar também o meu pai ao revelar minhas inseguranças. Não quero que eles se sintam culpados ou preocupados comigo, sabendo que a filha única deles não conseguiu superar a morte do irmão. É por isso que hesito em abrir meu coração completamente, mesmo sabendo que eles merecem saber o que está acontecendo.
    A tempestade que parecia iminente no céu se dissipou, mas uma tempestade ainda pior estava por vir.

Cap. 8: Amor Incondicional

✍️Após o almoço, meus pais seguiram para seus trabalhos e eu me entreguei aos estudos, fazendo pequenas pausas para ir ao banheiro, trocar mensagens com o Jorge e a Nina e beber água para me hidratar. A noite chegou sorrateiramente e só percebi quando do meu quarto vi a casa mergulhada em silêncio e escuridão. Era hora de buscar conforto em um banho reconfortante.
    Enquanto a água quente do chuveiro envolvia carinhosamente o meu corpo, meus pensamentos se agitavam em antecipação à conversa que em breve teria com meus pais. No quarto, pedi à Alexa para tocar as cinco melhores músicas da minha cantora favorita, Taylor Swift. Deitei na cama, deixei a melodia envolver meu ser e comecei a cantar junto, permitindo que a música me embalasse.
    Após ouvir a pequena playlist duas vezes, desliguei o som e consultei meu celular, percebendo que meus pais estavam atrasados. Enviei mensagens para ambos, mas não obtive resposta. Tentei ligar, mas ninguém atendeu.
    Logo em seguida, meu pai retornou minha ligação e à medida que ele falava, suas palavras transmitiam uma sensação de calma forçada, como se estivesse fazendo um esforço enorme para manter a tranquilidade. Porém, a entonação de sua voz deixava claro que ele tinha algo difícil para me contar.
    Dessa vez, eu estava sozinha no mesmo quarto onde recebi a devastadora notícia da doença do meu irmão. Dessa vez, meus pais não estavam aqui para me envolver em um abraço protetor, e eu ainda não era adulta o suficiente para compreender por que aquele destino cruel desafiaria minha família mais uma vez. Meus gritos ecoaram solitários contra as mesmas paredes quando meu pai, por telefone, me disse que minha mãe havia sofrido um grave acidente ao atravessar um cruzamento com o sinal fechado para ela.
    Ele ainda relatou que o carro dela foi atingido na lateral por um caminhão na avenida. Ela ficou presa nas ferragens por duas angustiantes horas até ser resgatada pelos socorristas. Ele acredita que a mamãe se atrapalhou com o carro automático e acabou invadindo acidentalmente a preferencial. Após encerrar a ligação, abracei o travesseiro e molhei-o em lágrimas.
    Minha mãe passou por uma cirurgia ainda durante a noite e foi transferida para a UTI de madrugada. Recebemos a informação de que ela precisaria de sangue e que o hospital não tinha disponível o tipo sanguíneo dela, AB negativo, um tipo raro. Iniciamos ali uma corrida contra o tempo, repleta de incertezas. Poucas pessoas são doadoras compatíveis, mas no dia seguinte, ao compartilhar a situação na escola, aconteceu o inesperado: descobri que Nina tinha sangue compatível com o da minha mãe e ela se ofereceu imediatamente pra doar. Junto com o Jorge e a Nina, lideramos uma grandiosa campanha de doação de sangue pela internet, mobilizando centenas de doadores de toda a região, incluindo vários alunos e professores da minha escola. Embora estivesse preocupada com a vida da minha mãe, não pude deixar de notar e sentir alegria ao testemunhar como Nina se sentia valorizada ao poder ajudar. Parece que não só toda a turbulência que ela viveu e em breve compartilharia com todos durante as atividades do “Setembro Amarelo”, mas a também a necessidade da minha mãe funcionaram como alavancas pra tirar da minha amiga o melhor dela. Ficava cada vez mais clara a verdadeira vocação da Nina: ajudar pessoas
Além da Nina, outros doadores compatíveis com minha mãe se apresentaram e no sétimo dia de internação finalmente eu meu pai recebemos uma boa notícia dos médicos: minha mãe estava fora de perigo e poderíamos visitá-la em um quarto fora da UTI.
    Adentramos a acomodação do hospital com um misto de alívio e felicidade. Ela estava deitada na cama, e mesmo abatida sorriu pra nós.
    Corri até ela e a abracei com cuidado, sentindo seu calor e sua presença reconfortante. Um cateter introduzia medicamentos em seu corpo, mas isso não diminuía a alegria de tê-la ali. Meu pai se posicionou ao lado dela, segurando sua mão com ternura.
    Era um momento de intensa emoção para todos nós. Sentei-me na cadeira ao lado da cama, olhei nos olhos deles e fiquei pensando em como a vida é efêmera. Em um momento, temos aqueles que amamos ao nosso lado, e no piscar de olhos, podemos perdê-los. Enchi-me de coragem e, inexplicavelmente, comecei a compartilhar minhas angústias mais profundas. As palavras fluíram de dentro de mim com uma intensidade avassaladora, revelando meus medos, minhas inseguranças e a dificuldade que estava enfrentando para superar a perda do meu irmão. Minha voz tremia, mas eu sabia que era necessário compartilhar com eles tudo o que estava guardado dentro de mim. Minha mãe e meu pai me ouviram atentamente com afeto e transmitindo um amor incondicional que me envolvia.
    No silêncio que se seguiu, pude sentir as minhas palavras sendo acolhidas por eles. Não houve julgamentos, apenas compreensão e um desejo genuíno de ajudar. Minha mãe olhou para mim e, sem dizer uma única palavra, transmitiu através do seu olhar e sorriso, ali naquela cama de hospital, diante da fragilidade da vida, o quanto ela me amava. Meu pai também expressou seu amor e apoio incondicional.
    Eu comecei a falar sem muitas introduções, deixando meu pai um tanto surpreso e percebi que ele estava demorando um pouco para entender o que estava acontecendo. Porém, minha mãe sorriu enquanto eu continuava falando, demonstrando seu apoio absoluto.
    — Mãe, pai... Tenho medo de tantas coisas. Medo de deixar nossa casa, de não conseguir viver longe das pessoas que amamos, de vocês, do Jorge, dos amigos, do curso que vou escolher. Enfim, medo do desconhecido... Também me sinto mal pela morte do Leo, como se fosse em parte culpa minha por não ter gostado quando soube que mamãe estava grávida. Eu não queria um irmão...
    — Sim, eu me lembro — disse minha mãe com uma voz baixa, mas claramente audível no silêncio que preenchia o quarto.
    — Eu não sabia — respondeu meu pai, com uma expressão de surpresa.
    — Então, quando meu irmão adoeceu e morreu, um sentimento avassalador de culpa se apossou de mim, mesmo lutando contra essa irracionalidade. Sinto que, de alguma forma, sou culpada por vocês não terem mais o Leonardo. É como se eu tivesse arrancado um pedaço de felicidade de vocês, deixando apenas um vazio insuperável. Por essa razão, não consigo conceber a ideia de me afastar e estudar longe de casa, pois seria como arrancar de vocês não apenas um, mas os dois filhos, deixando um ninho completamente vazio. Não tenho o direito de impor essa dor a vocês, que me criaram e me amaram incondicionalmente, assim como amaram o Leonardo. Sei que é irracional, mas esse sentimento de culpa me consome e não consigo me libertar dele.
    Minhas lágrimas começaram a escorrer e eu desabei em prantos me apoiando sobre meus joelhos. Meu pai largou a mão da minha mãe e se aproximou de mim, colocando a mão firme e carinhosa no meu ombro.
    — Filha, Deus não atende esse tipo de pedido. O que aconteceu com seu irmão foi uma fatalidade, você não é culpada por nada. Foram apenas circunstâncias da vida. Alguns partem cedo, enquanto outros vivem muitos anos, mas nem todos têm a oportunidade de desfrutar de uma vida tão maravilhosa quanto a que seu irmão teve. Além disso, você amou o Leonardo de forma verdadeira, e é isso que importa. Lá de cima, ele olha por você e torce para que você siga sua jornada, assim como ele seguiu a dele enquanto esteve conosco.
    Meu pai continuou, seu olhar cheio de ternura:
    — Quanto a mim e à sua mãe, temos um ao outro. Criamos você para que um dia pudesse ser livre para fazer suas escolhas e conviver com seus acertos e erros também. Estaremos sempre aqui para te apoiar quando estiver pronta para seguir seu próprio destino. Os ninhos são feitos para um dia ficarem vazios. Voe, minha menina.
    As palavras do meu pai caíram sobre mim como um balsamo e as lágrimas que antes eram de angústia, transmutaram-se em lágrimas de puro alívio. Ergui meu corpo na cadeira e fixei meus olhos em minha mãe, deitada naquela cama com os olhos marejados, mas um sorriso estampado no rosto, concordando plenamente com as palavras de meu pai. Em um impulso, levantei-me e a envolvi em um abraço apertado, sentindo uma inundação de amor e gratidão percorrer todo o meu ser. Com ternura infinita, ela sussurrou em meu ouvido:
    — O Leonardo faria onze anos amanhã.
    Nesse momento, o silêncio no quarto foi preenchido por uma mistura de emoções: tristeza pela ausência do meu irmão, mas também gratidão pela oportunidade de compartilhar esse momento de conexão profunda com meus pais. Eu me sentia envolta pelo amor deles.

Cap. 9: A Jornada

✍️No dia seguinte, retornei à Santa Casa para visitar minha mãe logo cedo. Montei na minha bicicleta e pedalei até o hospital. Como era feriado, não tive aula. Passei um tempo com ela, cerca de meia hora, e pude perceber o seu visível progresso. Ao sair dali, decidi fazer uma visita a outro ente querido.
    As ruas da cidade estavam calmas e silenciosas. Apenas em frente ao Santuário São Francisco de Assis, onde o tradicional desfile cívico do Dia da Independência do Brasil estava prestes a acontecer, havia um intenso movimento. Peguei um atalho e me desviei algumas quadras dali, passando pela Praça Nova de Julho. Foi então que me deparei com uma cena que encheu meu coração de emoção e orgulho: uma enorme faixa pendurada ao lado da Biblioteca, próximo à entrada do Museu do Folclore. Ali estava Nina, brilhando como uma estrela, desempenhando um papel ativo na prevenção do suicídio. Seu projeto, apresentado na nossa escola há apenas dez dias, ganhou uma proporção surpreendente. A Secretaria de Saúde do município convidou-a para palestrar em um fórum sobre prevenção que acontecerá em breve, com a presença de professores, pais, responsáveis e alunos da rede municipal de ensino. Sua foto sorridente estava no centro da faixa, ao lado de outros palestrantes. Foi uma explosão de alegria que tomou conta de mim. Quase chorei, quase gritei de felicidade. Lembrei-me da pequena semente que plantei na Praça da Vila Fátima e como esse propósito encontrou solo fértil para se desenvolver. Assim como as sementes de ipês que voam com o vento e encontram um lugar acolhedor no solo, germinando e se transformando em árvores belíssimas, Nina encontrou seu propósito e está florescendo rapidamente e de maneira esplêndida. Segui pedalando em silêncio, mas com um sorriso largo estampado no rosto, certa de que Nina encontrou um chamado capaz de impactar a vida de tantas pessoas ao seu redor.
    A manhã estava nublada, como se a chuva que vinha ameaçando há dias finalmente fosse chegar. Nos bancos de pedra sob as grandes árvores, alguns aposentados jogavam cartas. Passei por eles quase despercebida em minha bicicleta e segui em direção aos portões de acesso do cemitério, sentindo aquele aroma inconfundível no ar, semelhante a baunilha, era o ipê branco que havia florescido, embelezando o ambiente. Continuei caminhando até chegar ao túmulo onde o corpo do meu irmão foi sepultado. Pétalas brancas caíam sobre o mármore, adornando o chão com a delicadeza das flores do ipê. A majestosa árvore, vestida de branco, emanava uma sensação de paz. O horizonte era riscado por alguns raios distantes, enquanto o vento soprava suavemente, trazendo consigo nuvens carregadas.
    Sentando-me à beira do túmulo, observei as abelhas colhendo néctar das flores. Em silêncio, refleti sobre tudo o que vivi até chegar àquele momento.
    Depois de um tempo de silêncio contemplativo, decidi conversar com meu irmão:
    — Eu sei, Leonardo, que você está aí em cima. Falo olhando para o céu, repleto de nuvens carregadas que agora cobrem o cemitério, na esperança de que ele me ouça, onde quer que esteja.
    Enxugo as lágrimas, enquanto um raio de sol penetra as densas nuvens e acerta a lápide do túmulo do meu irmão. Viro o meu corpo e olho para trás, lá está ele, sorridente, em uma foto tirada por mim no seu sétimo aniversário. Leonardo da Silva Rocha: *2012 +2020. E logo abaixo, o epitáfio escolhido pelo meu pai: "Minha missão aqui na terra terminou, mas a sua ainda não". De repente, um sentimento me invade. Eu já havia lido aquelas palavras, mas somente naquele momento percebi o seu verdadeiro significado. Abraço-me, e sinto como se estivesse abraçando meu irmão, um conforto indescritível que me envolve calorosamente.
    Levanto-me com uma paz interna que não sentia há muito tempo, mais consciente de que é minha responsabilidade enfrentar meus próprios desafios, pois ninguém pode assumir essa jornada em meu lugar. Estou determinada a seguir em frente. A vida é imprevisível, e encontro-me em um estágio inicial, prestes a dar os primeiros passos além dos limites do lar. É isso que farei. Seguirei minha jornada, pois a vida para mim está no momento das grandes escolhas. Farei o meu melhor.
    Enquanto caminho pelos corredores estreitos entre os túmulos, uma aura de silêncio e serenidade envolve o ambiente, interrompida apenas por alguns trovões. Observo os nomes gravados nas lápides, testemunhas de vidas que se extinguiram. É como se cada sepultura guardasse uma história única, nem sempre completa.
    À medida que passo pelos túmulos, reflito sobre as vidas que ali descansam. Quantos sonhos foram sepultados junto com essas pessoas? Quantas aspirações e ambições foram deixadas para trás? É difícil não sentir uma pontada de tristeza ao imaginar que muitos daqueles que ali repousam não tiveram a chance de realizar tudo o que desejavam.
    O tempo é efêmero e a vida é frágil, um lembrete poderoso de que devemos buscar nossas paixões e metas com determinação enquanto temos a oportunidade.
    Cada passo que dou evoca lembranças dos meus colegas de sala de aula. São trinta e um rostos, cada um com sua própria jornada e desafios. Embora tenhamos compartilhado momentos especiais, percebo que conheço apenas um fragmento de suas histórias. Nem mesmo a história da Nina, minha melhor amiga, eu conhecia plenamente.
    Em breve, esse ciclo chegará ao fim, e outro se iniciará em nossas vidas. Nem todos os ninhos ficarão vazios. Alguns partiram com o desejo de permanecer, enquanto outros ficarão com vontade de partir, parece que a vida real é assim mesmo...
    Quantos deles estarão trilhando o caminho que verdadeiramente desejam? Quantos não estão cedendo a pressões de outras pessoas ou mesmo da sociedade? Será a vocação o suficiente para garantir o sucesso? É difícil prever o futuro.
    Reservo o último passo para refletir sobre o Jorge. Nosso relacionamento tem sido incrível, no entanto, no próximo ano, a distância se colocará entre nós. Sei que muitos relacionamentos não resistem ao teste da distância e do tempo. Não posso garantir que não faremos parte dessa estatística, mas prometo fazer o possível para que minha história seja escrita ao lado da dele.
    Chego ao corredor central, e pingos de chuva começam a cair enquanto sigo sem pressa em direção à saída do cemitério. Cada gota de chuva é como um sinal de renovação, uma oportunidade de recomeço.
    Assim como a água regenera a terra e faz brotar novas flores, eu também renasço a cada passo que dou, determinada a viver uma vida plena e significativa. Meu irmão partiu, mas sua memória permanece viva dentro de mim. Agora é hora de seguir em frente, honrando sua vida e encontrando meu próprio caminho. Com cada gota de chuva, sinto que estou sendo purificada, fortalecida e pronta para enfrentar o desconhecido. Saio pelo mesmo portão que entrei, a chuva que cai suavemente sobre mim, afugentou os senhores que jogavam carteado pacientemente sob as árvores em frente ao muro do cemitério. A rua está deserta, o mundo está à minha frente, e eu estou pronta para abraçá-lo.


Pedro Trajano

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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.
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Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)