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quinta-feira, dezembro 04, 2025

Cansaço de Séculos

Outro dia ouvi Ney cantando
o que até então só ouvira de Cazuza.
Aquele verso me acertou no meio do peito:
“transformam o país inteiro num puteiro,
pois assim se ganha mais dinheiro”,
e nem é metáfora; é relatório.

E eu fiquei pensando
que esse circo barato
que eles jogam na nossa cara
não ilumina nada, só ofusca.
Eu e você, parece usar nariz de palhaço,
acreditando que quando o bolo crescer
receberemos nosso pedaço.
Mas o que sobra são mais migalhas
lançadas desse banquete insaciável,
de quem acha que ainda devemos bater palma
pela esmola separada dos trilhões
que arrancam de nós, os impostos.

Sob o céu: esgoto.
Sobre o chão: esgoto.
Sob a pele: um cansaço
que plano de governo nenhum drena.
O país é uma ferida aberta
que os poderosos lambem
pra ver se escorre mais ouro.
Quando não conseguem,
acham outro jeito
de arrancar mais um pouco do nosso couro.

Não tenho lado.
Neste jogo, que já nasceu errado.
Não implico com quem tem —
pois já tive.
Mas percebi que os lados não servem
quando a mesa do poder é inclinada,
sempre no mesmo sentido:
pra cima,
onde quem pisa o chão quase nunca sobe,
porque, no fim das contas,
é o sistema que se perpetua,
não as ideologias.

Isso vem de longe,
das caravelas ao cartão corporativo
e aos bilhões do fundão eleitoral:
enquanto a saúde agoniza em corredores
e a educação segue passando mal.
O nome muda,
o truque não.
Sempre tem alguém engravatado ou apaisana
jurando que veio salvar o povo
enquanto enfia a mão até o ombro
no nosso bolso.

E eu aqui,
tentando me expressar em versos,
sem fé em herói,
tentando moldar meu mundo
a qualquer custo,
desde que o custo seja só meu.
Quero clareza
antes que me transformem
em mais um objeto descartável
da engrenagem que tudo moe.

Sei da força do povo, sei.
O medo é dos que nos lideram —
esses que descem do carro blindado
rodeados de segurança e puxa-saco,
e sobem no palanque com voz de salvador
e fome de imperador romano.
De quatro em quatro anos
chegam ao poder e: gostam.
E querem ficar.
E deixam pra nós o velho espetáculo:
recomeçar a luta
com os ossos gastos.

Talvez eu escreva porque falar já cansa,
ou porque a indignação ainda precisa ser escrita,
ou porque a esperança virou um bicho arisco,
cansado de ouvir
a mesma faixa arranhada do disco.

Mas uma coisa eu sei:
de regime em regime,
de governo em governo,
o que mudou neste país?
Talvez só os slogans,
como a selfie de quem abraça pobre.
Não sou tão pessimista quanto parecem
esses meus versos —
acredito, sim, na mudança.
Mas ela virá quando o povo cansar de aplaudir
quem transforma ajuda social em bagagem de troca
e ainda nos culpa
por não saber votar.

Eu sou poeta, sim.
Mas não sou manso.
Eu escrevo.
Eu grito no papel.
Eu digo:
me deem dignidade:
saúde que respire,
educação que liberte,
segurança pública de verdade,
um país onde se ensine
que vale a pena
ser honesto,
e onde o povo não seja tratado
como resto.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano
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