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terça-feira, setembro 02, 2025

A Vida em 4 Operações

Somando instantes, multiplicando sentidos — porque viver é mais sobre sentir do que contar.

✍️ 
A vida tem uma matemática que nos favorece.
Um jeito diferente de usar a calculadora:
não para contar cédulas ou números,
mas para medir, sem pressa nem precisão,
o café quente em manhãs frias,
o sol que atravessa a fresta da janela,
o riso que explode da boca de alguém na rua,
o tropeço na calçada que não nos derruba.
São adições, multiplicações de momentos simples e belos
que fazem do viver uma aquarela.

Não é que não exista subtração,
nem divisão —
como a enfermidade que chega sem avisar,
a morte que leva quem amamos,
o desemprego que bate à porta,
o acidente que não pede licença,
a rispidez na resposta de alguém,
os tantos olhares sem crença.

Mas são tantas outras somas positivas,
frente aos dissabores,
que até uma criança percebe
que a vida ganha de goleada.

Se há um instante em que a morte vence,
como um conta-gotas que chega ao fim,
quantos outros dias se oferecem para somar?
E tantos saldos para multiplicar:
passos no chão da cidade, vento nas árvores,
pássaros disputando os ipês floridos,
a fila do mercado que insiste em ensinar paciência,
a criança que cresce — nossa descendência,
a professora que leciona com eloquência.

São os pequenos gestos diários,
ao longo do percurso,
que definem se vivemos mais
ou morremos mais durante a jornada.

E eu escolho ficar com o que tem mais vida,
ainda que seja em doses mínimas,
todos os dias.
No gesto de ajudar alguém sem perceber,
no nascer tímido de uma fonte límpida
na rachadura do concreto,
na descoberta de dois corações pulsando,
e se abrigando num mesmo corpo,
na chuva fina que alivia o clima seco,
no cheiro da comida subindo da cozinha,
no doce entregue escondido pela vó aos netos —
quase um ato delinquente,
no som dos sapatos batendo no asfalto,
na conversa que se perde
e se reencontra na próxima esquina,
na poesia solta nos posts,
no refrão de uma MPB esquecida no disco de vinil,
na vontade de vencer desse povo do meu Brasil.

Cada dia vivido é moeda guardada no bolso da alma.
Cada riso, cada olhar, cada respiração
é soma que cresce, lucro que ninguém toma,
um infinito resumido em soma.

E quando o ciclo se fechar,
que a gente possa olhar com carinho
no derradeiro segundo existente
e enxergar uma vida que valeu a pena:
porque vivemos mais do que morremos,
carregamos um mundo inteiro de pequenas alegrias,
e valeu a decisão de viver vivendo.
E que a vida, no fundo,
foi
menos dívida
e mais dividendo.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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✒ Este e todos os demais conteúdos deste blog são obras de autoria de Pedro Trajano de Araujo.

⚠ A reprodução, total ou parcial, para fins comerciais, é proibida sem autorização expressa do autor.

📧 Contato: pedrotrajanoaraujo@gmail.com


sexta-feira, agosto 29, 2025

Gotinhas de Poesia # 9 - Babá Milionária















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terça-feira, agosto 26, 2025

Um Vencedor

Entre perdas e cicatrizes, a vitória de seguir em frente com verdade e coragem.

✍️
Não mais escondo minhas cicatrizes,
deixo que o tempo as mostre por inteiro,
porque o que me feriu, também me moldou.
Sou tronco rachado, que decidiu ficar de pé.
Sou as folhas que voam ao vento,
mas que escolhem o próprio pouso.
Não se engane:
eu sei pra onde estou indo.


Houve flores que não floriram,
pelos caminhos que me trouxeram aqui,
sonhos que o tempo levou antes da hora,
há perfume que se perdeu sem ser sentido.
Mas há ternura naquilo que ficou:
o calor de um sol amigo na pele,
lembranças de um riso cravado na memória,
marcas eternas, impressas na poeira dos passos.


Nem sempre chego inteiro.
As partes que chegam se fazem suficientes.
Não se sobe no pódio
evitando sofrimento.
Sou a soma exata das partes que vivo,
que se arquivam na minha trajetória,
e, por tudo isso, sou um vencedor.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

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quinta-feira, agosto 21, 2025

Nem Todos Ninhos Ficarão Vazios

Cap. 1: Ninhos e Pensamentos

✍️O ipê floresceu! O professor explicava Probabilidade e Estatística, enquanto eu, envolvida em meus pensamentos, distraída, observava a paisagem do pátio através das vidraças da sala. As flores coloriam o ambiente com seu vibrante tom de rosa. Conheço todos os rostos dentro dessa sala. Estudamos juntos desde o ensino fundamental, exceto o Jorge, que entrou para nossa turma este ano após seus pais se mudarem da capital para o oeste paulista. "Trabalho", ele me disse alguns dias atrás, quando conversamos na cantina. Suspirei profundamente, perdendo-me em pensamentos, apenas com aquele sorriso. Além de seus cabelos rigorosamente bagunçados, desalinhados de forma organizada, seus olhos azuis destacavam-se em contraste com sua pele bronzeada, evidenciando seu amor pelo ar livre. Talvez eu tenha exagerado um pouco nas minhas observações sobre o garoto mais bonito da sala, porque a atmosfera ficou um pouco estranha depois disso, já que ele percebeu que eu o observava.
    Graças a Deus, a Nina surgiu do nada e me pediu a matéria de português da aula de ontem em que ela havia faltado. Entreguei a ela, mas percebi que mal me encarou, criando um clima pesado que o Jorge também notou, mesmo assim de forma não intencional ela acabou me salvando daquele momento, no mínimo inusitado, por assim dizer. Aproveitei a deixa e também me retirei do local deixando o Jorge sem entender muito o que estava acontecendo.
    Nina é minha melhor amiga desde o jardim de infância. Sempre fomos confidentes naturais, mas no momento, estou preocupada com ela, sinto que algo está acontecendo desde o início do ano, pouco a pouco ela foi se distanciando de mim e de outras amigas da sala, e se tornando displicente com os estudos.
    Nina, até o ano passado, sempre teve um jeito fascinante e inspirador. Dona de cabelos negros que caíam em suaves ondas sobre seus ombros, adicionando um toque de sofisticação à sua aparência, olhos castanho-escuros profundos e expressivos, revelando uma mistura de determinação e vulnerabilidade, Nina, sem dúvida, era a menina mais bonita da escola, aquela que fazia os garotos suspirarem, embora ela não desse muita importância pra essa posição. Seu foco sempre foi nutrir bons relacionamentos de amizade.
    No entanto, ultimamente tenho percebido que ela está perdendo seu brilho, está tão diferente, quase irreconhecível. Preciso descobrir o que está acontecendo.
    As belas flores rosas do ipê escondem parcialmente um ninho vazio de um casal de pombas em um galho alto. Os filhotes deixaram o abrigo seguro recentemente e alçaram voos desengonçados, como se estivessem inseguros. Por alguns dias, eles vagaram assustados pela escola, pois ainda não tinham habilidades suficientes para voar para além deste prédio. Corriam o risco de serem pisados acidentalmente por alguém ou até mesmo se tornarem almoço de algum predador. Era visível o medo que sentiam. Mas ontem de manhã, eles conseguiram voar mais alto que o muro e desapareceram. Seguiram o curso natural, fizeram o que seus pais lhes ensinaram.
    O primeiro semestre do último ano do ensino médio está a algumas semanas de terminar. Dentro de alguns meses, nos despediremos, cada um seguindo seu próprio caminho. Uma grande revoada acontecerá no terceiro ano B. Será que todos abandonarão seus ninhos seguros para alçar voos solitários em novos horizontes? Voar do ninho seguro já foi tudo o que desejei, mas hoje não tenho mais tanta certeza.
    O perfume adocicado das flores do ipê lá fora invade a sala, coincidentemente neste Dia Internacional do Meio Ambiente...um verdadeiro presente da natureza! De onde estou sentada consigo avistar perfeitamente a velha árvore, imponente e bela. Foi meu pai quem me ensinou a apreciar os ipês; aqui em Penápolis eles são abundantes. Meu pai costuma parafrasear Augusto Cury, dizendo: "é preciso apreciar o belo". Ele me ensinou a enxergar nos ipês uma das expressões de beleza da natureza. Até setembro, eles continuarão a florescer em Penápolis. Além do rosa, ainda florescerão os ipês amarelos e brancos. Dentre todos, é com o branco que mais me identifico, é como se eu tivesse uma conexão quase espiritual com ele, pois é um ipê dessa cor que oferece sombra ao túmulo de Leonardo, meu irmão. Que saudade! Após sua morte, muitas certezas deixaram de existir em minha cabeça.

Cap. 2: Sombras Perigosas

terça-feira, agosto 19, 2025

Adeus Forçado

 Gritos inconvenientes que fingem não ouvir

✍️
a rua explode em alvoroço —
desviando o olhar

o ônibus segue
o cachorro late
o bêbado tropeça
a criança suja pede
o motorista fecha o vidro
o sinal abre

a vida insiste em ser barulho —
mas na casa daquela esquina
só há silêncio

no lugar dos sonhos
um abismo se abriu
o prato dela, sozinho na mesa —
esperando talheres que não virão
a refeição perdeu calor e sabor

luz sem brilho
toca o chão como se fosse normal
como se ninguém tivesse visto o mal

frágeis fitas zebradas
não impedem ninguém de entrar
mas ninguém quer mais entrar

notícia fria de jornal de ontem:
ela não está lá
o vento levou o grito — dela
antes do socorro chegar

no espelho
ainda há um reflexo daquela mulher
em conversa de argumento
com a sombra dele —
que mede cada passo
como se tivesse pose

o corpo feminino,
ontem — hoje —
tantas forças querem ser seus donos

alguma coisa se perdeu
entre o almoço e o término
entre o choro e o desespero
depois do "não me mate"
antes do último suspiro forçado

na sala
um vaso com flores lilases
testemunhas mudas
murcha devagar —
como se soubesse

que o amor não mata
mas agora também sabe

que há aqueles que dizem amar
e seguram a faca
com a mesma naturalidade
que entregam flores —
brancas, rosas e lilás…

ainda assim é essencial saber
que existe memória e resistência
que insistem em não ceder

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, agosto 12, 2025

Pequenos Adultos

Rostos pequenos, mundos grandes demais

✍️
Ela calça saltos
antes de saber amarrar os cadarços.
Na prateleira baixa, dormem batons
onde antes moravam bonecas.
✍️
Posam para fotos
antes de aprender a perder na amarelinha.
Sorriem para a câmera
como quem engole o choro.
✍️
O palco cabe na palma da mão,
a luz fria da tela ilumina
olhos que ainda deveriam
aprender a ler o mundo devagar.

✍️
Ainda há pequenos braços
tentando abraçar o vento,
dedos de crianças querendo tocar as estrelas,
mas a pressa da adultização
acelera os passos,
como um relógio cruel que dá saltos.
✍️
As hashtags cuidam do berço,
os likes embalam o sono,
e os pais se orgulham —
confundem aplausos com afeto.
✍️
A indústria —
essa babá milionária — conta moedas
enquanto ensina a somar seguidores
antes mesmo de saberem contar até cem.
✍️
Brinquedos dormem no armário.
O balanço no quintal range, parado.
✍️
Longe do clamor,
sobram pedaços de infância
vendidos em pacotes patrocinados.
✍️
O preço de crescer cedo demais
não cabe na fatura.
✍️
O mundo aplaude,
o contrato é assinado,
e a infância —
essa figurante sem cachê —
sai de cena em silêncio.

@opoetatardio — Pedro Trajano

segunda-feira, agosto 11, 2025

Clara, Luz em Terra Irmã

Da luz de Assis ao coração de Penápolis

✍️
Como quem semeia sem querer ser vista,
plantou fé, renúncia e silenciosa caridade.
Raízes fundas que o tempo não consumiu,
floresceu Clarissa no jardim do Altíssimo.
✍️
Em Assis, no fim do século XII,
um coração se acendeu:
Clara — nobre de berço,
mas ainda mais rica por se doar.
Deixou as sedas do mundo,
seguiu a voz de Francisco,
e descobriu em Jesus
a verdadeira luz.



✍️
Não desejou palmas nem louros,
mas a sombra da Cruz e o pão da oração.
Encontrou refúgio santo na Eucaristia,
onde o mundo calava e o Amor falava.
Sua vida, um cântico escondido,
que ainda ressoa nestes tempos e templos,
em cada gesto de entrega,
em cada suspiro de fé.
✍️
Penápolis, irmã distante,
acolheu sua claridade.
Também se fez aqui chão sagrado:
ergueu-se uma casa de paz.
A Paróquia Santa Clara de Assis se faz:
um farol humilde,
uma tenda de esperança,
uma igreja irmã — para tantos irmãos.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)