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quinta-feira, maio 01, 2025

Quando Era Só Viver

Esqueci de ouvir o tinir dos talheres,
na pressa de engolir o almoço.
Não reparei no riso tímido da minha filha,
nem no prato que minha esposa pôs com carinho,
enquanto eu respondia mais uma mensagem.

Passei por ipês em flor,
com os olhos presos na tela do celular,
enquanto relâmpagos dançavam no horizonte—
eu estava ausente do momento presente.

Quantas coisas fui deixando pra depois,
como se a vida fosse algo que se salva em nuvens.
Mas ela não tem download,
não tem botão de pausa.

Hoje, lembro do que quase vivi,
como quem tateia um sonho já esquecido.
E, enfim, compreendi:
o ouro só brilha
diante dos olhos de quem sabe admirar.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano


terça-feira, abril 29, 2025

Perfeita Poesia


Teu nome está escrito onde o vento dança,
e cada sílaba ressoa ao meu escutar.
És um raio de luz que abre as manhãs,
dando compasso ao meu dia, todos os dias.

Minha filha, você é a palheta que combina
com todas as cores na tela do tempo.
És canção que embala os sonhos dos anjos,
o acorde que acorda a alegria.

Meu amor por ti transborda,
não há cópia de ti, és criação singular.
Nada no mundo tem rima mais pura
do que teu existir, teu jeito de me olhar.

Uma perfeita poesia, que salta aos olhos,
metáfora sem igual, sei que é possível,
quando o mundo lhe parecer estranho demais,
alinha-se em meus braços, sou teu pai visível.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

quarta-feira, abril 23, 2025

Antes de Mais Um Dia

Ali, no fim da noite,
meus pés tocam o limite do que sou.
Uma neblina antes do amanhecer
me veste com perguntas
que desconheço —
e que nem mesmo meu inconsciente ousa responder.

O despertador silencia meus sonhos,
e eu, tão pequeno, tão inteiro,
sou apenas um pensamento do abismo
que contempla a si mesmo em mim,
antes de mais um dia começar.


✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

 

terça-feira, abril 22, 2025

Andarilho que Sou


Nasci em um calendário desatualizado,
carrego o tempo como quem veste um casaco gasto.
Desejei estações que nunca foram minhas,
ouço canções de um tempo que nunca vivi.

Sou um andarilho entre mudanças;
faço ninhos no chão para escapar do acaso.
Trago pedras nos bolsos,
para não ser arrastado pelo vento.
Tenho cicatrizes bordadas a fogo lento.

Às vezes caminho sem rumo, sem bússola,
meus passos tocando ruas que não me reconhecem.
Fui sombra de lamparinas antigas,
já morei sob telhados sem luz elétrica.

Sou uma mistura de analógico com digital,
um código-fonte perdido entre cartas escritas à mão.
Já escrevi bilhetes em lenço de papel;
hoje, digito em teclado virtual.

Já fui cortador de cana,
me perdi entre cafezais.
Trocaram meus lápis por enxadas.
Escrevi minha infância sob o sol;
meus primeiros sonhos, hoje, são devaneios.

Joguei bola descalço,
tomei banho de cachoeira,
ralei os joelhos no cascalho.
Sei o que é beber leite no curral.

Disseram que venci
quando me aplaudiram na colação de grau.
Vislumbrei o feito, até que percebi
que o diploma era um passo, não a chegada.

Hoje, sou matéria em trânsito:
entre o que se forma e se desfaz.
Mas não se engane:
posso ser rocha, água, guerra e paz.

Carrego nas costas poeiras do século vinte.
Companheiro das máquinas, compartilho ideias.
Num "Admirável Mundo Novo", às vezes me perco,
sem saber se sou analógico ou digital.

Por muitas vezes visitei o passado,
mais vezes do que precisava.
Estou escolhendo viver no presente,
e tenho encontrado razões contundentes.

Hoje, meus poemas voam entre nuvens,
se espalham em telas,
às vezes se perdem entre minha mente e o algoritmo.
Mas a poesia — essa...
essa me encontra onde eu estiver.
Temos nos encontrado intimamente na sala de estar.

Neste poema autobiográfico e reflexivo, descrevo minha trajetória como um andarilho do tempo — alguém que caminha entre o passado e o presente, entre o analógico e o digital, entre o século XX e o XXI.

✍️ @opoetatardio — Pedro Trajano

terça-feira, abril 15, 2025

Espero-te


Se tuas mãos tocam as rosas,
brotam os segredos da seiva.
Se teu olhar se perde no céu,
as nuvens dançam de Penápolis a Pequim.

No teu abraço, adormeço como criança,
e o tambor do teu coração embala meu sono.
O tempo faz-se leve brisa, suave neblina,
quando teu riso descansa em mim.

Espero-te
como a manhã espera a luz,
como as marés aguardam a lua,
como o sertão anseia pela chuva,
como as abelhas querem a primavera,
como a eternidade espera a noite chegar.
Espero-te...

@opoetatardio
Pedro Trajano

segunda-feira, abril 14, 2025

Amigo que é amigo visita


A caneca empoeirada na estante
ainda espera o café da conversa.
O sofá — meio torto — guarda o lugar
onde a amizade se sentava, sem pressa.

Idas e vindas,
horas viram dias.
Olhe para trás:
e a visita, aonde fica?

Corre-corre de uma geração
plugada, ligada.
Stories, emojis e um “bom dia”
na palma da mão —
Visitá-lo? Não dá. Hoje, não.


Entre culpa e desculpas,
pilhas de agendas sobre a mesa;
entre avançar ou adiar,
aonde fica o visitar?

Minutos viram horas, horas viram dias,
dias viram anos... anos de uma vida,
até que o tempo, finito, determina,
sem aviso:
não há mais tempo para visitas.


Pedro Trajano
@opoetatardio

Este poema é uma adaptação de um poema com o mesmo nome que escrevi em agosto de 2020.

terça-feira, abril 08, 2025

Meu Amor


 

Ela carrega a paz no sorriso,
com passos firmes que guiam seu caminho,
seus olhos azuis pintam o horizonte,
e me envolvem com sua calma profunda.
Enquanto o mundo segue apressado ao redor,
um beijo me tira do chão e me leva ao paraíso,
um jeito simples de mostrar o seu amor por mim,
e, sem defesa, respondo em um sussurro:
Te amo.

Pedro Trajano
opoetatardio

terça-feira, abril 01, 2025

O Canto da Montanha

No seio das montanhas, a natureza dorme,
ela esculpe segredos na face das rochas,
que são como memórias que o tempo tenta apagar.
O vento, curioso, passeia pelas encostas,
como quem busca algo que ainda não existe,
poemas que ainda não foram ditos, nem sentidos.

As árvores, enraizadas em suas vertentes,
não perguntam mais. Elas dançam,
sem pressa de saber se o amanhã trará tempestade ou sol.
E os rios, antigos como o próprio tempo,
deslizam sem pressa, sem destino,
tocando as margens com delicadeza — ou não.

Lá embaixo, no nível das águas,
o mar se ergue, furioso e imenso,
num beijo brusco, beirando a loucura.
As ondas se espalham, espuma que se perde,
tentando encontrar harmonia no caos de suas formas.

                                                      opoetatardio

Eu sou mais eu. Mas o meu eu tem empatia pelo seu eu. (Pedro Trajano)