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quarta-feira, abril 01, 2026

Nada ou Quase Nada

 Flávio da Silva observava a bicicleta encostada na parede do corredor de blocos sem reboco, azul metálica com um laço rosa no guidão e adesivos de unicórnio brilhando sob a luz fraca da manhã. A beleza da bike destoando daquele lugar que dava acesso a dois cômodos nos fundos de uma oficina, um espaço entulhado por mobílias velhas e promessas não cumpridas.
    Era o presente de aniversário de Ana Clara, acabando de ser deixado ali pela tia Marina que viajaria a trabalho e não poderia entregá-lo pessoalmente.
    — Você entrega assim que ela chegar da escola! Quero ver a reação dela. Grave um vídeo e me manda! — disse a irmã enquanto adentrava o carro com ar de quem já estava muito atrasada.
    Flávio ficou com as palavras de confirmação presas na garganta, limitando-se a um aceno de mão à distância. Sua filha já sabendo do presente, tendo até desenhado uma bicicleta parecida e colado o papel na parede da casa, a pintura sendo a única beleza naquele canto onde o mofo crescia mais rápido que as esperanças.
    Flávio tirou uma foto da bicicleta com o velho celular de tela trincada para mandar à esposa, mas por algum motivo inexplicável desistiu, guardando o aparelho no bolso quando ele vibrou, uma notificação estridente e familiar que todo apostador conhece:
    “Multiplique sua chance hoje — odds especiais! Deportivo Malacateco x Real Estelí.”
    Ele não conhecia ambos os times, sequer saberia apontar a América Central num mapa, mas algo se acendeu por dentro, assim como um viciado em abstinência prestes a tomar o primeiro gole depois de dias sóbrio.
    Lembrou que da última vez que ganhou uma boa bolada, assim ele considerava, era aniversário da esposa. Também era sexta-feira. O sol parecendo estar no mesmo lugar no céu. O vento... jurava que era o mesmo. Até o pássaro cantando no galho do ipê da calçada em frente ao portão parecia igual ou pelo menos da mesma espécie. Juntando um punhado de pequenas coincidências na bacia das superstições, chegou à única conclusão que lhe fazia sentido:
    “É o meu outro dia de sorte.”
    Consultou o saldo da conta: R$ 40,00. Era o que lhe restava da ajuda social que recebera do governo, o único dinheiro que ele ganhara naquele mês que já se findava, valor reservado para refrigerantes e chocolates baratos. A esposa, que estava faxinando uma casa e só voltaria no fim da tarde, havia exigido que ele não deixasse passar em branco os 10 anos da filha.
    Enquanto olhava aquele saldo miserável, uma nova promoção piscava no app:
    “Multiplique sua aposta por 30. Odd especial só HOJE”
    Fez as contas de cabeça: R$ 40,00 virariam R$ 1.200,00. Já podia imaginar o que diria à esposa, a verdade, pois quando ele ganhava não havia brigas. Mas então vieram as contas à mente: três de luz, duas de água, quatro meses de aluguel. E Djalma, o agiota, já perdendo a paciência com mais de R$ 2.000,00 atrasados.
    Foi nessa mistura de infortúnios que Flávio julgou ter tido uma ideia brilhante. Arriscada sim, mas viável, ele fez questão de acreditar, não percebendo o quanto suas convicções já vinham sendo moldadas por seus ídolos do esporte, homens sentados sobre fortunas promovendo aplicativos de apostas com promessas de oportunidades, ganhos fáceis e legais, tudo acompanhado daquela frase cínica:
    “Jogue com responsabilidade.”
    Achava que conhecia a dinâmica cruel do sistema: pelo menos três contra um. É uma equação de quatro envolvidos, a empresa faturando montantes incalculáveis, os influencers mordendo seus cachês milionários, o governo embolsando sua parte generosa em impostos, e o apostador, o único que realmente fica com o risco.
    Encostada à parede, a bicicleta parecia pressentir o que estava para acontecer.
    Flávio puxou o portão atrás de si e saiu empurrando a bike pela calçada esburacada. Cinquenta minutos depois a dona do brechó fez um PIX de R$ 500,00, a bicicleta novinha vendida por menos da metade do valor. Flávio cruzou a rodovia deixando para trás mais do que a bicicleta da filha, mais do que a passarela de ferro desbotada que ele usava para cruzar em segurança a BR, tudo por uma espécie de corrida de ouro dos tempos virtuais, a “Serra Pelada” agora estando no celular através de diversos aplicativos na palma da mão em qualquer lugar do Brasil.
    Era sexta-feira, 14h00. O bar de esquina à beira da rodovia era um desses lugares onde o tempo se enraíza, paredes cobertas por pinturas desbotadas sobre tijolos sem reboco, mesas plásticas riscadas com nomes de casais que talvez já nem se falem mais, mas com um toque de modernidade: wifi para os clientes, grátis.
    Uma rápida olhada no histórico dos times por um site esportivo e pronto, o que viu já foi suficiente para ele tomar a decisão. Ganhar tornou-se tão real quanto os caminhões que cruzavam sob a passarela de ferro que lhe trouxe até aquele bar.
    Flávio pediu a primeira cerveja, das mais baratas, R$ 3,00 a lata, e com o celular na mesa colocou os fones, ajustando-os nos seus ouvidos com a destreza de quem já está acostumado a se isolar do mundo ao seu redor. A televisão no bar exibia um reality show americano mas ele não via nada disso, ele estava totalmente focado no jogo que iria começar, os fones de ouvido abafando o barulho do lugar, o som das conversas desconexas, as risadas, o clink das garrafas de vidro, apenas ruídos distantes, só o que importava era a espera pela narração das jogadas, da voz do locutor que acabara de fazer uma propaganda sobre uma nova casa de aposta online, a adrenalina subindo cada vez mais a cada minuto que o aproximava da “Aposta da sua vida”.
    A transmissão da partida começou, a tela rachada exibindo o jogo entre os times: Deportivo Malacateco da Guatemala x Real Estelí da Nicarágua pela Copa Centro-Americana. Ele não conhecia nenhum dos times, mas o aplicativo dizia: “odd 30.1”, a chance de transformar R$ 500,00 em uma pequena fortuna. A aposta tinha que ser no Deportivo Malacateco para vencer fora de casa por 2 a 0 especificamente, nem menos nem mais.
    R$ 15.000,00. Dinheiro para comprar outra bicicleta para a filha, talvez até melhor. Dinheiro para pagar Djalma e calar sua fúria. Para quitar a luz, a água, os meses de aluguéis atrasados. Dinheiro para o bolo da filha. Para improvisar uma pequena festa e chamar algumas amiguinhas da escola dela para participarem. Para comprar algumas roupas e sapatos novos para sua esposa e para um mês de mercado também, pelo menos.
    Na cabeça de Flávio era só isso que poderia acontecer.
    O jogo seguia sem grandes emoções, pelo menos para um telespectador que não apostou o presente da sua filha nele. A cada toque de bola Flávio apertava os olhos, balançava as pernas, roía as unhas, a certeza do ganho fácil mergulhada em um turbilhão de ansiedade.
    O bar seguia no caos de sempre, alguém jogando sinuca, outro discutindo política no balcão, um casal pedindo um lanche frio. A TV do estabelecimento exibindo agora uma novela mexicana.
    Começou o segundo tempo e Flávio estava à beira de um ataque de nervos. Somente aos 80 minutos: gol do Deportivo Malacateco.
    — Um! — murmurou socando levemente a mesa. O celular saltou, algumas latas de cerveja caíram ao chão, olhares curiosos se voltaram para ele, o dono do bar saiu de trás do balcão, rapidamente recolhendo as latas e como bom vendedor que era aproveitou a deixa e levou mais uma cerveja cheia para Flávio que aceitou prontamente. O jogo continuou indiferente àquele pequeno incidente no bar a mais de 6.000 quilômetros do local onde estava sendo decidida a sorte de Flávio.
    Aos 83 minutos, escanteio. O goleiro sai no alto e apanha a bola com firmeza. Faltava só mais um gol e ele sairia dali um vencedor.
    “Vai… vai, caramba…”
    A agonia de Flávio era visível em cada músculo, em cada movimento, em cada respiração... O dono do bar fez um sinal perguntando se ele queria mais uma cerveja.
    Flávio virou a que estava em sua mão em um grande gole e acenou indicando que o proprietário podia trazer a outra, o suor escorrendo pela testa.
    Aos 89 minutos o Malacateco teve uma chance clara. O goleiro saiu mal, a bola sobrou limpa na pequena área, o atacante encheu o pé… Por cima do gol.
    Flávio passou as mãos trêmulas pelo rosto, arrastando-as até a boca para conter um grito de derrota, não de vitória, apertando os olhos, algumas lágrimas sendo contidas.
    A imagem do rosto da filha, e da bicicleta, invadiu sua mente com violência. Pensou na esposa chegando em casa. Pensou no que poderia dizer à filha.
    O árbitro indicou seis minutos de acréscimo, a esperança teimosa voltando a respirar. Pediu a décima terceira cerveja.
    Aos 95, um pênalti para o Malacateco. Última chance. Flávio ficou de pé.
    Bateu com os nós dos dedos na testa, no queixo, no peito, uma espécie de ritual, fazendo orações e promessas silenciosas. A imagem mostrava o árbitro cercado de jogadores adversários, chamando o VAR. Flávio parou de respirar, embora fosse visível o desespero de seu pulmão enchendo e esvaziando sua caixa torácica.
    Cinco minutos depois a decisão: Pênalti confirmado.
    Flávio nunca havia recebido R$ 15.000,00 de uma única vez.
   O goleiro adversário foi advertido com cartão amarelo por tentativa de tumultuar a cobrança. O batedor mostrando-se indiferente a tudo que acontecia à sua volta, estava concentrado, parecia experiente.
    A bola foi colocada na marca da cal, o camisa 10 se preparou, caminhando com lentidão, olhar fixo, frieza de quem já fez muito aquilo, e com a perna esquerda bateu firme no canto esquerdo.
    Flávio saltou do seu assento assim que a bola saiu do chão, vendo com agonia o camisa um do time que ele já havia considerado não ser um grande arqueiro por duas ou três falhas ao longo da partida dar um passo à frente e se lançar com tamanha envergadura que parecia dobrar de tamanho. A bola fez uma curva perfeita em direção ao gol, mas tocou nas pontas da luva da mão direita do goleiro.
    Flávio fechou os punhos enquanto via a curva da bola desviar um milímetro da direção do fundo da rede, o coração ousando parar de bater, tudo parecendo em câmera lenta.
    E então…
    A bola explodiu na trave. Voltou em direção ao campo, bateu na cabeça do goleiro que acabara de cair sobre o gramado. A redonda retornou perdendo velocidade, empurrando a grama sem vontade e preguiçosamente tocou na trave novamente e… saiu caprichosamente pela linha de fundo. O apito final veio logo depois, seco, insensível e definitivo. 
Na tela do aplicativo de Flávio:
Saldo: R$ 40,00 — e ainda faltava pagar pelas cervejas que bebera.
    Flávio soltou a respiração, os pulmões se esvaziando do ar que nem sabia estar prendendo, deixando o corpo cair sobre a cadeira. Tomou o último gole da cerveja, mas agora o líquido desceu por sua garganta amargamente, reflexo das suas emoções interiores, tal como um alcoólatra que sabe que não poderia ter dado o primeiro gole, mas deu e percebe que só ganhou o vazio da sua escolha.
    Ficou ali parado por um bom tempo, escutando o burburinho do bar que estava cada vez mais cheio e o barulho frenético de carros e caminhões na BR à frente, o sol pendendo no horizonte.
    Foi rápido em fechar o aplicativo de apostas, pois aquele saldo parecia fita-lo como olhos acusadores espiando-lhe do fundo de um mundo cruel. A foto tirada da bicicleta da filha na parte da manhã tomou conta da tela, saltando-lhe aos olhos para lembrá-lo de forma dura que certos jogos só se ganha quem não entra em campo.
    Enviou a foto para a lixeira, apagando do celular, mas não a tirando da mente. Na tela ainda viu o horário: 16:30h.
    Deu conta de que precisava levantar, já estando atrasado para buscar a filha na escola. Pagou pelas 13 cervejas com o dinheiro reservado para a compra das guloseimas para o aniversário de Ana Clara, ficando com um real na conta, insuficiente até para comprar um refrigerante para a filha.

    Flávio saiu do bar carregando o peso da culpa que, naquele momento podia se comparar com a carga que as carretas que cruzam a BR dia e noite transportavam. No céu um bando de urubus rodopiava como se assistisse à cena, a cidade seguindo indiferente como quem já se acostumou a não se comover com o desespero de seus cidadãos.
    Flávio caminhou devagar, passos curtos, descompassados, como se a cada um deles o chão afundasse sob seus pés e o céu se sobrepusesse à sua cabeça, o som dos motores e buzinas embora perto lhe parecendo distante, como se o mundo real estivesse longe dele.
    Lá em cima a passarela metálica tremia com o vento causado pela passagem dos grandes caminhões, era feia, velha, com grades enferrujadas e degraus gastos, mas era segura e estava ali para o que deveria ser a única opção para os pedestres atravessarem a autoestrada.
    Flávio parou à beira do acostamento, olhando para o alto, depois para o outro lado da rodovia, visualizando Ana Clara chegando em casa com a mochila nas costas e os olhos esperançosos à espera do presente. Passou as mãos pelo rosto, sentindo a aspereza da poeira grudada no suor de sua testa. O vento soprou forte e levantou poeira, um caminhão cruzando em alta velocidade fazendo a passarela lá em cima tinir.
    Flávio pensou na bicicleta que não estava mais escorada no velho muro, pensou nos olhos da filha atravessando o portão e perdendo o brilho, pensou nas respostas que não tinha, já não se sentindo digno de pensar na esposa.
    Inspirou fundo, sentindo o sol na pele. Era o mesmo sol que, horas antes, fizera brilhar o presente de sua filha, mas agora sua luz era agressiva, hostil até demais para um fim de tarde. Naquele instante, a consciência o atingiu como um golpe: tudo era fruto de suas escolhas: A aposta, a venda do presente que não era seu, a teia de mentiras que ainda precisaria tecer. Ele havia apostado tudo numa espécie de jogada mágica e agora se via à beira de um abismo cavado por suas próprias mãos. A imagem da bicicleta, entregue por um valor deflacionado, saltou à sua mente. O saldo zerado no aplicativo de aposta. O real solitário na conta. O presente que não existia mais, as boas intenções com o dinheiro que ganharia, a quebra de confiança para com a sua família de um jeito que ele jamais atingiu. Somou tudo e deduziu que o seu exato valor como pai, marido e provedor naquela equação era de:
    Nada ou quase nada.
    Fitou o movimento frenético na rodovia à sua frente. Ele conhecia a fama daquele lugar, inúmeros relatos de pessoas que preferiram ignorar a velha passarela de metal e atravessar a rodovia por baixo… algumas delas não chegando ao outro lado. Outra carreta se aproximou, o ruído crescente soando como um magistrado pronunciando em alta voz a sentença ao réu: culpado.
    E então, consciente de sua responsabilidade, tomou a única decisão que julgou ser a certa. Sua dor era invisível, quase silenciosa, em absoluto contraste com o som estridente da buzina da carreta e o cheiro de borracha queimada que subia do asfalto quando deu mais um passo em direção à pista, fazendo o veículo frear bruscamente. A luz do sol que se inclinava à linha do horizonte, como quem quer beijar o fim do dia fez brilhar o azul metálico da cabine da carreta, com sua faixa rosa no alto do para-brisa e um adesivo de bicicleta reluzindo no para-choque prateado, como se o universo devolvesse o presente de Ana Clara de uma forma que ele jamais poderia entregar.


✍️ Pedro Trajano

    Nada ou Quase Nada, é um conto que aborda o impacto do mundo das apostas online na vida de pessoas comuns. A história segue Flávio, que, em meio a dificuldades financeiras e o vício em jogos de azar, vende a bicicleta de sua filha em busca de uma solução rápida. A narrativa explora a ilusão de ganhos fáceis e as consequências devastadoras que essa busca pode trazer, afetando não apenas o dinheiro, mas também a confiança e o futuro familiar. 
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